Lua acima, sol abaixo
Ou o trilho da cabeça cortada
Em tempos de literatura clássica ganhando as grandes telas e circulando na boca da meninada, uma frustração familiar emerge ao som de suspiros do meu lado da tela. Não falo só do desgosto de testemunhar mais um ciclo de veneração ao gênio Christopher Nolan, claro. Me entristece a contínua reiteração de tropos de grandes repositórios do imaginário cultural humano, em especial em aspectos simplificados e já batidos.
A mitologia grega, que é a vítima da vez, é talvez o arcabouço mítico mais explorado intelectual e criativamente da história da humanidade. Não me interessa neste texto discutir a legitimidade e o valor disso, fiquemos no factual. Por bem ou por mal, os gregos nos legaram um imaginário riquíssimo e muito cativante. O problema é a insistência em repisar sempre os mesmos aspectos até quando alegam oferecer uma nova perspectiva. É essa abordagem estreita, aliás, que leva à redução de todo o complexo imaginário grego a uma lista de deuses, heróis e criaturas, deixando de lado a riqueza de variações desse arcabouço ao longo da história e da geografia do mundo helênico.
Um dos ótimos exemplos de como há um potencial muito maior de novidades a se explorar do que de partes já popularizadas é o jogo Hades, de 2020, que faz a leitura mitológica do clássico God of War (2005) parecer uma fanfic de menino pré-adolescente (o que ele realmente é, afinal). No grande lançamento do pequeno estúdio Supergiant Games, tomamos em mãos as ações de Zagreus, um semideus filho do titular deus do submundo que busca obsessivamente escapar os domínios do pai para encontrar sua mãe, Perséfone, que fugiu do marido após a suposta morte nascitura do filho. Ao longo da história, encontramos personagens já bem conhecidos, mas com diferentes ângulos explorados, dos contos gregos, além de diversas figuras e elementos menos populares que trazem tremendo frescor à obra.
É certo que mesmo Hades é passível de críticas, mas essas já seriam em uma outra ordem de análise mitopoética, escavando exatamente a riqueza de potencial narrativo que ainda aguarda a devida diligência daqueles interessados. Não é hoje, contudo, que revisitaremos nossos camaradas helênicos numa valsa galimática. Quero falar de outro repositório cultural que é vilipendiado na grande maioria de suas adaptações mais populares: o Ciclo Arturiano.
Não cresci com especial interesse às lendas do Rei Artur. Como uma criança afeita à fantasia e ao cenário imaginário do Medievo, é claro que alguma coisa chegou até mim, acho que especialmente em quadrinhos genéricos que pesquei nas bancas de jornal ao longo dos anos. Lembro de uma em especial que era quase uma versão de camelô dos Cavaleiros do Zodíaco em caracterização e estilo narrativo.
Esse contato ocasional foi o suficiente para me gerar interesse na famosa série literária As Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley, bem no momento em que eu tentava esticar os horizontes da leitura pra me sentir mais adulto (aos quinze anos, risos). Na época, até achei a saga legal, ainda que pouco engajante e maçante demais para meu parco referencial. Puxando da memória, sei que hoje detestaria por inteiro, e não só pela mudança de paradigma que vivenciei depois.
Apesar de ter gostado dos livros, senti que os excessos de Bradley tinham matado qualquer chance de voltar a beber das águas do poço arturiano. O Ciclo como um todo se tornou algo meio patético a meus olhos, uma ciranda novelesca no pior dos sentidos. Foi só graças a uma promoção obscena que deixou os livros de Bernard Cornwell atraentes a meus olhos. Já tinha lido e gostado de seu Azincourt e, mais uma vez, queria investir nesse veio para me sentir adulto nas referências. Assim pus as mãos em As Crônicas de Artur e nada nunca mais foi igual.
A experiência com a trilogia e minha consequente relação com ela valem um texto à parte, mas cabe dizer que foi um verdadeiro divisor de águas. Foi a primeira vez que passei por um arroubo de compulsão febril pela leitura de uma série literária. Li os três livros, cada um com mais de quinhentas páginas, em treze dias corridos. Naquele julho de 2015, minhas férias universitárias foram marcadas pelo ciclo restrito de ler e dormir, até de comer eu esquecia. Nada podia tirar de minhas mãos o relato apaixonado de Derfel Cadarn, suas aventuras junto do lendário Artur, o Inimigo de Deus, o Rei que Nunca Foi.
A seu modo, Cornwell também tornou para mim o Ciclo Arturiano impossível de ser revisitado. Desta vez, porém, foi por ter encontrado uma versão definitiva. Ninguém nunca vai recontar a saga de Artur como o antes desconhecido e agora antológico Derfel, ninguém transmitirá a emoção de ver a lenda se deslindar com uma poética única, a magia e o insólito invadindo bem aos poucos, pelas beiradas, até o último feitiço de Merlin e a fuga para Avalon nos arrebatar por completo. Em sua magia narrativa, Cornwell consegue criar o Artur mais histórico possível e, ao mesmo tempo (e talvez por consequência), o mais fantástico que alguém seria capaz de conceber. Nada mais mágico do que se relacionar com heróis profundamente humanos, afinal.
Saí da experiência avesso a dar qualquer chance para outras versões da famosa Questão da Britânia. Seria até injusto com quem quer que estivesse autorando a história. Essa distância forçada acentuou a saudade que sinto com frequência de meus grandes amigos Derfel, Artur, Cei, Culhwch, Sagramor e Galahad. Será que de fato não há meio de mitigar a ausência? Será que realmente ninguém é capaz de me levar de volta aos montes e pradarias da velha Britânia e me fazer sentir em casa?
Descobri, graças aos bons deuses celtas, que há sim uma brecha para tal. O segredo, fica aqui entre nós, é encontrar adaptações de histórias menos centrais do Ciclo Arturiano. A saga principal de Artur já tem sua versão definitiva, mas há tantas outras que derivam desta, tantos personagens interessantes, espaços inexplorados e feitos pouco cantados a respeito. O caso que me atentou para isso foi a leitura de Spear, novela de Nicola Griffith, uma reconstrução da história de Percival, aqui chamado pelo nome galês de Peretur, deixando os figurões do Ciclo como participações pontuais e secundárias.
É também o caso do verdadeiro protagonista desta edição, o nobre e honrado Gawain, que ganhou um filme para chamar de seu e me capturou desde o momento em que soube que viria a existir.
A Lenda do Cavaleiro Verde (The Green Knight, 2021) adapta o clássico poema anônimo Sir Gawain e o Cavaleiro Verde. Nesta versão cinematográfica, temos nosso herói titular, interpretado por Dev Patel, numa situação razoavelmente distinta do cânone arturiano tradicional. A história começa numa manhã de Natal, Gawain é acordado do que parece um sonho bastante sugestivo por Essel (Alicia Vikander), sua namorada-não-assumida, e logo vemos que ele está em bordel, onde costuma passar grande parte de seu tempo, para desgosto de sua mãe.
Gawain participa do banquete de Natal na Távola Redonda com seu tio, o Rei (Sean Harris), que o convida a sentar-se ao seu lado. Enquanto este discursa, e logo após, a mãe de Gawain (Sarita Choudhury) se junta a outras mulheres numa torre para um ritual cuja conclusão coincide com a chegada de um misterioso cavaleiro coberto por galhos e casca de árvore no salão real.
Ele anuncia seu desejo por um jogo natalino: qualquer cavaleiro capaz de desferir um golpe contra ele ganhará seu machado verde, mas deverá viajar até a Capela Verde no Natal seguinte para receber um golpe equivalente em troca. Gawain aceita o desafio e, empunhando a lendária Excalibur, decapita-o. O cavaleiro então se levanta, ergue a própria cabeça decepada, enfatiza o acordo firmado e parte rindo.
O ano passa voando, Gawain claramente em conflito se deve ou não cumprir com sua parte no jogo. Seu tio o incentiva a tal, aludindo ao valor esperado de um cavaleiro no processo. Equipado da melhor forma possível, Gawain parte a cavalo rumo à Capela Verde, levando o machado verde e um cinturão da mesma cor feito por sua mãe, que afirma que nenhum mal lhe acontecerá enquanto o estiver usando.
Após os primeiros dias de viagem, Gawain se depara com um sujeito (Barry Keoghan) urubuzando um campo de batalha repleto de cadáveres. Ele indica um riacho que o levará à Capela Verde e pede uma “contribuição” pela dica, ao que Gawain responde com uma única moeda. Pouco depois, o rapaz e outros dois indivíduos emboscam Gawain e roubam o machado, o cinturão e o cavalo, deixando-o amarrado. O protagonista se arrasta até sua espada e consegue se libertar.
À noite, ele chega a uma cabana abandonada e adormece na cama, apenas para ser despertado pelo fantasma de uma jovem chamada Winifred, que lhe pede que recupere sua cabeça num corpo d’água próximo à casa. Gawain encontra o crânio no fundo do lago e o posiciona junto aos restos mortais da garota em sua cama. Na manhã seguinte, descobre que o machado lhe foi devolvido.
Em certo ponto, Gawain percebe que uma raposa vermelha o acompanha em sua jornada, e está junto dela quando avistam alguns gigantes atravessando um vale. Na mesma noite, em meio a uma tempestade, ele chega a um castelo habitado por um lorde (Joel Edgerton), que o informa que a Capela Verde fica nas proximidades. Meio relutante, meio aliviado, Gawain aceita o convite do anfitrião para hospedar-se ali até a manhã de sua partida.
Para animar o período de espera, o lorde propõe uma troca: o que ele obtiver na caçada dará a Gawain em troca do que este encontrar em sua morada. Na manhã seguinte, a senhora do castelo, idêntica à sua Essel e que desde o princípio vinha lhe fazendo investidas sedutoras, presenteia Gawain com o cinturão verde, que ela afirma ter confeccionado pessoalmente. Nosso herói então cede às investidas dela em troca do objeto e recebe um agrado genital. Atabalhoado pela situação, ele então parte mais cedo do castelo e encontra o lorde na floresta, que o beija em retribuição às ações de sua esposa.
Gawain chega a um riacho onde um barco o aguarda, mas, antes que possa usá-lo, a raposa fala, implorando que ele abandone a missão. O jovem a afugenta e segue de barco até a capela, onde o cavaleiro repousa sentado, em aparente sono profundo. Gawain espera o dia e a noite até seu algoz despertar na manhã de Natal. Prestes a receber o golpe derradeiro, Gawain recua, ao que o cavaleiro o repreende. Ele se ajoelha mais uma vez e mais uma vez recua no último instante, fugindo às pressas enquanto pede desculpas. Ele encontra seu cavalo do lado de fora da capela e retorna para casa.
De volta em Camelot, Gawain é sagrado cavaleiro por um Rei convalescente, que logo morre para deixar o trono para o sobrinho. Essel dá à luz a seu filho, mas Gawain a abandona, levando a criança e casando-se com uma nobre. Seu filho atinge a maioridade e morre em batalha. Gawain se torna um rei desprezado e incapaz de preservar o reino diante de inimigos externos, sucumbindo a um cerco final. Abandonado pela esposa, pela filha e pela mãe, ele retira o cinturão verde e sua cabeça cai de seus ombros.
Estamos de volta à Capela Verde, onde um Gawain ainda prostrado para o golpe final desperta de seu devaneio. Ele retira o cinturão e enfim anuncia que está pronto. O cavaleiro demonstra satisfação com a bravura do jovem, se ajoelha à sua altura e passa o dedo por sua garganta, anunciando sua “cabeça cortada” com um sorriso amigável no rosto.
Fui ver A Lenda do Cavaleiro Verde com antecipação por ser uma história do Ciclo Arturiano que não busca recontar o fio central dos mitos e tudo mais. Qual minha surpresa ao me deparar com um filme quase lisérgico de tão simbólico, e, melhor ainda, pouco preocupado com o cânone arturiano e muito mais interessado em desenvolver as camadas cabíveis à história. Resumi-lo a um enredo é uma traição, os eventos falam pouquíssimos em si mesmos, o charme e a mensagem em si está na sensorialidade da obra, algo que precisa ser experienciado de forma global. O que não quer dizer que não haja ênfase em seus temas, claro. Há dois deles bastante entrelaçados que quero explorar: o peso das escolhas e o heroísmo.
Na amígua cena de abertura, um prólogo onírico em que vemos Gawain entronado e coroado, podemos considerar que é como uma representação de suas fantasias com a glória de fazer parte do famoso e honrado círculo de cavaleiros de seu tio. Nos depararmos logo de cara com um sonho que é interrompido por um balde de água fria é como um choque de realidade metafórico que nos dá o substrato perfeito para examinar a diferença entre narrativas de si e a feitura de si.
É comum que projetemos uma imagem já realizada daquilo que gostaríamos de ser e que, em partes por consequência, não saibamos exatamente qual seria o caminho entre o presente e essa projeção. Esse intervalo contém um universo inteiro de problemáticas invisíveis, em especial aquelas que minam a própria materialidade do potencial de realização da imagem projetada. Um exemplo, como sempre, cai melhor do que palavras soltas.
Tomemos meu campo, esta nobre e maltratada arte da escrita. Boa parte (para fazer uma generalização sutil e menos pedante) das pessoas comuns que aventam apreço pela literatura e pela escrita dizem que gostariam de ser escritoras. Isso quer dizer, via de regra, que elas gostariam de ter livros ou textos publicados. Veja bem, preste atenção na frase: boa parte das pessoas que gostariam de ser escritoras gostariam, na verdade, de ter publicado. A conjugação está no particípio, é uma hipotetização de um evento já concluído. Elas não querem escrever, elas querem já ter escrito. E não se engane, eu sou uma dessas pessoas, ou pelo menos fui pela maior parte de meus anos aventando esse desejo.
O exemplo diz respeito à conveniência de fantasiar com um evento concretizado em contraste com as infinitas inconveniências de trazer a cabo todos os passos necessários para a concretização do evento. É mais fácil desejar ser algo do que efetivamente sê-lo. É exatamente essa a situação em que Gawain se encontra. Sua vida é tranquila, não precisa garantir sustento vivendo com a mãe, é valorizado pelos tios e vive à sombra das glórias da geração anterior, projetando seus anseios num futuro hipotético quando as coisas vão acontecer por conta própria. Ele queria ser um cavaleiro honrado e reconhecido, o que não significa que pretende fazer o que é necessário para se tornar um.
A história do filme é exatamente a desconstrução desse fantasismo ontológico a partir dos imperativos de lidar com a vida na prática. Sua jornada é uma de transformar a idealização em práxis, o ponto de contato onde o substrato das ideias, desejos e anseios é moldado no encontro entre a marreta e a bigorna que são as pauladas da vida. Escolher é o processo de forjar a própria existência, a construção ativa de um eu que só pode se manifestar de fato em relação e em resposta ao mundo ao redor.
Em sua busca por honra e realização, Gawain precisa escolher exatamente que tipo de pessoa que quer ser e se está disposto a fazer o que for preciso para tal. As duas cenas marcantes de cenários futuros se desenrolando são como Gawain imaginando a história de uma outra escolha sendo tomada e, em sequência, decidindo que não é essa a vida (e a morte) que quer para si, optando por continuar o árduo caminho de forjar uma história mais plena.
Na primeira, amarrado e amordaçado após ser atacado pelos bandoleiros em meio à floresta, a câmera sai de um Gawain entregue à frustração de sua prisão e roda pelas árvores até voltar ao ponto inicial, revelando um esqueleto onde antes jazia o protagonista. Ao fazer o percurso inverso, vemos Gawain saindo de seu estupor momentâneo e se arrastando até a espada abandonada pelos atacantes para se libertar.
Mais adiante, temos um diálogo do filme que ilustra ainda melhor o simbolismo em jogo. Já perto do fim de sua jornada, diante da lareira do castelo do lorde que o abriga, Gawain conversa brevemente sobre o sentido de sua busca. Seu anfitrião lança a pergunta definitiva para a saga pessoal: uma vez completada a tarefa, a honra que define o cavaleiro estará conquistada? Gawain hesita, mas responde que sim.
No dia seguinte, quando oferece o pescoço para seu algoz, ele contempla como o futuro que se desenrolaria se retornasse para Camelot como um covarde. A consagração como herdeiro da coroa e seu reinado seguiriam diante da sombra desta jornada determinante. Para a lenda de seu nome de modo geral, seria o homem que sobreviveu ao insólito Cavaleiro Verde, o herdeiro do Rei Artur, aquele responsável por levar Camelot adiante. No entanto, todas as escolhas subsequentes ao retorno seriam marcadas pela mesma covardia, a obsessão pela garantia da própria segurança, sintetizada no uso constante e irremediável do cinturão enfeitiçado que sua mãe preparou para preservá-lo. Como um rei focado na própria automanutenção, Gawain talvez não fosse um tirano, mas seria isolado de seu reino, um centro difuso para um corpo doente, aquele que veria seu mundo se desmantelar diante dos olhos até o ponto em que a autopreservação se tornaria o mais esdrúxulo dos fenômenos.
Gawain está em busca de glória e consagração, anseia avidamente por viver (ou já ter vivido) algo que o torne reconhecível enquanto sujeito, mas o medo do que isso pode engendrar o paralisa. Quando encontra seu tio, este pede que o sobrinho conte uma história de si para que possam enfim se conhecer mutuamente. Gawain responde, constrangido, que não há nenhuma que sirva para tal.
O que se segue em termos de filme é exatamente o desenrolar de uma verdadeira jornada formativa. Ao invés de uma usual narrativa de provação heroica por atos de valentia e realizações físicas, acompanhamos um Gawain que faz as escolhas mais difíceis diante da covardia, do medo, do despreparo e do desespero, invertendo o que tomamos normalmente pela construção de um herói.
A questão do heroísmo, como dá pra perceber, deriva diretamente do constante desafio de escolhas enfrentado por Gawain. Para engatilhar meu argumento, trago uma citação de uma resenha do filme, pois nada como uma leitura tacanha, simplista e mal ajambrada para servir de ponto de partida para minar a riqueza dos temas da história.
A analogia com super-heróis é pertinente aqui, e não apenas porque o visual grandioso do filme, por vezes, remete à mitificação retumbante da Liga da Justiça, de Zack Snyder. Lowery reformulou sua fonte original — o poema do século XIV Sir Gawain e o Cavaleiro Verde, de atmosfera inquietante e fascinante — transformando-o no que é, essencialmente, uma história de origem típica de histórias em quadrinhos, na qual um homem comum alcança a grandeza ao enfrentar um inimigo aparentemente invencível. [...] Se, no poema, a jornada de Gawain é um teste peculiar de seu compromisso com a cavalaria e a honra, aqui ela se resume, basicamente, a uma longa sessão de terapia. (Keith Watson, Slant Magazine)
A Lenda do Cavaleiro Verde é qualquer coisa menos uma história de super-herói. Vemos sim iterações diretas do monomito de Joseph Campbell, mas há uma inversão direta nos valores usualmente associados à jornada do herói tradicional, tornando Gawain o exato oposto do que representam os personagens totalitários de Zack Snyder. Se é para contrastar o material original com a adaptação, há leituras muito mais interessantes a se fazer.
No poema medieval, Gawain já é um cavaleiro celebrado e muito reconhecido por ser o mais honrado dentre os membros da Távola Redonda. No filme, a mudança nos temas da história estão prenunciadas no próprio título reduzido, pois o protagonista também é um “cavaleiro verde” no sentido de ainda ser imaturo e não testado pela vida. A tradução para o português que adiciona “a lenda” alimenta ainda mais esse potencial; afinal, a quem se refere à lenda? O cavaleiro que lança o desafio é muito menos importante do que o cavaleiro que Gawain quer se tornar, é a sua história que está sendo forjada em tempo real, e não a propagação daquela do outro.
O título também traz outro simbolismo interessante para a provação de Gawain, com o verde do cavaleiro desafiante remetendo à sua relação com o mundo natural, vasto e indomado, para além do encastelamento da vida em Camelot, que representa a domesticação do mundo e, de certa forma, é o contexto de segurança garantida que acaba criando homens falhos, ainda que promissores, como o jovem Gawain do começo. É preciso uma intrusão desse universo exterior de possibilidades nessas paredes seguras para chamar ao teste o potencial herói. Ainda assim, mesmo quando o chamado da aventura vindo de fora, é preciso brio para atendê-lo e percorrer o caminho até o fim.
Já exploramos num longínquo passado galimático qual a fibra com a qual se constrói esse tipo de personagem através da aventura do jovem Emilio Gauna, protagonista de O Sonho dos Heróis, de Adolfo Bioy Casares. O herói é menos um sujeito realizador de grandes feitos e muito mais alguém disposto a encarar o destino de frente.
Aqui, a ‘coragem’ é menos um fio condutor do que uma noção a ser questionada — de forma dura e implacável. [sobre Patel] Como Gawain, ele tem a tarefa de enfrentar e dominar o momento mais difícil da vida: saber quem você é e tentar, com todas as forças, convencer a si mesmo de que pode ser outra pessoa. (Barry Hertz, The Globe and Mail)
A Lenda do Cavaleiro Verde trata de alguém que vive à espera de forças externas que o transformem na figura heroica e galante que ele acredita que deveria ser. Mas, no cerne do filme, há uma lição tão atemporal quanto qualquer lenda: você pode viajar para onde quiser, mas jamais conseguirá deixar a si mesmo para trás. (Alison Wilmore, Vulture)
Em sua tosca comparação com os “heróis” de Snyder, Keith Watson acerta ao dizer que A Lenda do Cavaleiro Verde é uma longa sessão de terapia. Afinal, é esse tipo de jornada que produz os heróis mais substanciais. É no confronto interior que a forja acontece, o externo é apenas um gatilho. O herói é aquele que se realiza através dos feitos, e não o contrário. Não é necessário reconhecimento ou veneração, como no caso do herdeiro ianque de Leni Riefenstahl, essa obsessão freudiana pela deificação de homens estatuescos. Ao contrário, o Gawain do filme de Lowery é um herói vacilante que encontra fibra em meio à contemplação do próprio desespero.
Em termos de estruturas simbólicas de narrativas, a escola do imaginário oferece um excelente arcabouço para ilustrar o potencial da questão. Organizado pelo antropólogo francês Gilbert Durand a partir de uma matriz anterior de epistemologia dos símbolos, o campo do imaginário prescreve dois tipos de regimes narrativos: o diurno e o noturno. (Há um terceiro, o crepuscular ou sintético, que para Durand faz parte do noturno mas que no Brasil ganhou corpo como algo próprio. Não é o caso de explorá-lo aqui hoje.)
A tradicional jornada do herói comporta, usualmente, elementos característicos do regime diurno, com heróis solares, radiantes, impetuosos. Há a perene preocupação com a retidão, uma postura de lança que sempre abre o caminho à frente e aspira à ascensão aos céus. De modo geral, o herói diurno é aquele que carrega em si uma transbordante pulsão de vida.
O Gawain de Lowery é, por sua vez, um herói noturno, um sujeito autocontido, de pouco confronto físico e atravessado por emoções conflitantes. Seu arco é um processo de desnudamento e descida ao infraego, não à toa os grandes avanços de sua jornada ocorrem à noite, em momentos de busca pelo abrigo do calor uterino em qualquer cavidade que se apresenta.
A predileção de Lowery por examinar o que vem depois de mitos e lendas ressurge neste filme, lembrando-nos de que, por trás de cada epopeia, há apenas um homem que precisa continuar vivendo após a grande façanha ter sido realizada. Histórias de feitos heroicos continuam a nos atrair porque nos dizem que são os grandes momentos de grandeza que fazem a história, ao passo que a bondade raramente é registrada. (Alissa Wilkinson, Vox)
Gawain é a encarnação do constante exercício de manejar o processo anterior e as consequências posteriores a cada escolha, um herói construído na constante reafirmação do código de constituição do eu que tanto busca realizar. Ao final, o encontro na Capela Verde é a mais evidente das mortes metafóricas. No entanto, a seu modo único, é uma que se consolida apenas como o abandono de uma casca que já não serve mais ao personagem, que passou todo a longa travessia até chegar ali gestando e fazendo emergir, aos moldes le-guinianos, o sujeito que tanto ansiava se tornar.
O título desta edição vem de “Moon Above, Sun Below”, faixa do álbum Pale Communion, de 2014, da banda sueca de metal progressivo Opeth. A ideia veio assim que encaixe a leitura a partir da escola do imaginário. Gostaria de algo menos literal, mas é chamativo o suficiente pra funcionar.
O texto base desta edição é uma resenha de A Lenda do Cavaleiro Verde (The Green Knight), filme escrito e dirigido por David Lowery e lançado em 2021. Desde a primeira assistida, anos atrás, fui tão capturado pelo simbolismo visual da história que sabia que precisaria me debruçar sobre ela para brincar de decodificar. Não esmiucei tanto quanto o referencial que me apoio permitiria, mas acho que deu pra pegar o sentido da brincadeira.
No texto, cito trechos de quatro resenhas sobre o filme que li durante a produção da edição. O primeiro é de Keith Watson, da Slant Magazine; o segundo é Barry Hertz, do The Globe and Mail; o terceiro é de Alison Willmore, da Vulture; e o quarto é de Alissa Wilkinson, da Vox. A menção que faço ao antropólogo francês Gilbert Durand se baseia em seu grande livro As Estruturas Antropológicas do Imaginário, publicado originalmente em 1960 e com edição brasileira de 2012 pela WMF Martins Fontes, com tradução de Hélder Godinho.
Esta edição da Galimatias foi concebida e escrita por Jotapê Russo, este que vos fala. A identidade visual e as ilustrações são de Raíssa Barbosa, que faria estragos com um machado mágico.
Obrigado pela leitura. Espero que este passeio pelos bosques do heroísmo noturno tenha sido gentil com seu tempo.




