Devorando a terra
Ou o sabor acre da desolação
Estou sentado num restaurante à beira da estrada. Os caminhões passam e fazem a brita vibrar. O clima é uma contradição insolúvel: a temperatura é amena, a brisa fresca indica que na sombra faz frio, mas o sol a pino chega a arder. Não sinto nem calor nem conforto térmico. Já são tantos dias de campo que me perdi na semana.
Os caminhões passam, a brita vibra. Especulo até onde vão, quais os ermos e rincões que atravessam para levar suas toneladas de carga inescrutável. O quão longe estamos dispostos a ir para garantir meios de vida? Quais linhas somos capazes de cruzar em nome do anseio pelo conforto material?
Acho que estou formulando mal a pergunta. É mais fácil delimitar os nãos. O quão longe não estamos dispostos a ir, as linhas que não somos capazes de cruzar. E acho que qualquer resposta antecipada é precipitada. Acho que só descobrimos mesmo quando a hora chegar.
Cresci um jovem noveleiro. Uma de minhas lembranças mais antigas é da expectativa para o fim de Porto dos Milagres, a primeira novela que me capturou já em seu trecho final. Não lembro de absolutamente nada da trama, apenas a familiaridade consolidada posteriormente com o rosto de Marcos Palmeira. Muito mais clara é a imagem da antecipação para a sucessora no horário nobre, a inoxidável O Clone, a primeira que acompanhei de cabo a rabo.
Dali em diante, o estrago estava feito. A audiência dedicada às telenovelas foi se alargando, abarcando a das sete, a das seis, Malhação, até chegar no Vale a Pena Ver De Novo. Os deuses do bom senso me privaram do acesso à TV a cabo pois sabiam que eu seria um fissurado no canal Viva e sua programação dedicada à reprises. Quando cheguei ao início da adolescência, ficar esticado no sofá ou na cama a maior parte do dia vendo TV de forma ininterrupta só pelas novelas se tornou minha principal atividade doméstica, mais até do que ler, surfar na web ou jogar videogame.
Assisti tantas que tenho dificuldade de posicioná-las no tempo ao longo de suas durações, algo raro em minha construção de memória. Recorro a um misto de posicionamento espacial e marcadores adicionais pra organizar a cronologia. O fim de Esperança, por exemplo, sei que foi em 2003, pois estava numa pousada/colônia na praia com minha mãe, avó e prima e fomos até a sala de TV do local para poder assistir à conclusão da saga de Toni. Sei que Senhora do Destino foi entre 2004 e 2005, pois vi seu começo numa cidade e o fim já morando em outra, e lembro como foi um evento familiar assistir ao desfecho da maligna Nazaré.
Sei que Alma Gêmea estava no ar em 2005 pois me lembro de passar muitas tardes nos meus tios vendo os capítulos com meus primos ao longo daquele primeiro ano em que moramos na mesma cidade. Sei que Paraíso Tropical, assim como Sete Pecados, foi em 2007, pois assistia na sala da casa onde moramos por apenas seis meses naquele ano e o espaço era muito característico por ser gelado como um frigorífico. Duas Caras começou neste mesmo ano e terminou no seguinte, nos acompanhando na última mudança de casa em família. A Favorita a seguiu em 2008, sendo uma das primeiras que assisti majoritariamente sozinho depois que minha mãe passou a dormir fora a trabalho. Logo depois veio Caminho das Índias, que foi a primeira que assisti primordialmente em meu quarto, estreando minha tão desejada TV de 21 polegadas, e a primeira das oito que me decepcionou por seu enredo modorrento.
Após uma sequência de furos n’água, a virada de 2010 para 2011 foi cheia de emoções folhetinescas conforme acompanhei Ti-ti-ti, que é minha favorita de memória, e a escalafobética Passione, que rendeu mais um evento familiar com nada menos do que dez parentes monopolizando a TV da casa alugada na praia para ver seu fim, para terror do meu tio, o único que detestava novelas.
Não sei dizer exatamente o que me fez deixar de acompanhar novelas após o término dessas duas. Sim, pois é, eu perdi o fenômeno Avenida Brasil. Já não ligava mais e não fui capturado pelo hype. Acho que cheguei no meu ponto de saturação, cansado do formato engessado e das infinitas repetições resultantes dele. A nível macro, as tramas são previsíveis até hoje. Os tipos de núcleos se reiteram, os arquétipos de personagens também, a condução do enredo raramente tem como inovar. Nada disso é um problema em si, especialmente nas mãos de autores competentes.
O que deve ter me afetado mais foi o timing, foi o momento em que comecei a ter acesso a mais séries estrangeiras e animes diversos. Veja só, também são fontes audiovisuais cheias de repetições, mas deve ter contado o fato de que eram novidades jogando contra algo antigo em meu histórico.
O distanciamento foi interrompido brevemente no fim de 2017, quando passei um período mais longo com meus pais durante as férias da graduação. Revivendo os tempos de vegetar no sofá sem fazer nada (algo que ainda aprecio e é minha verdadeira concepção de estar de folga), acabei entrando na onda deles e passando a acompanhar O Outro Lado do Paraíso, a novela das oito (nove) do momento.
Na história, ambientada principalmente na região do Jalapão, em Tocantins, acompanhamos a jovem professora Clara, que dá aulas num quilombo e vive com seu avô num sítio cujo solo abriga uma riquíssima jazida de esmeraldas. Ela conhece e se apaixona por Gael, herdeiro de uma família tradicional de Palmas, a capital do estado, e logo se casam. Nem termina a cerimônia para ele se revelar um agressor sistemático que passa a abusar da protagonista. O comportamento é estimulado por sua mãe, Sophia, que só permitiu a união do filho com uma pobretona porque sabe do valor das terras e pretende tomá-las da nora.
Após o nascimento do filho do casal, Sophia forja documentos que permitem uma internação compulsória de Clara num hospital remoto, onde ela deveria viver para sempre definhando enquanto a família do marido se reconstrói financeiramente com suas novas posses. A consequência direta disso no Jalapão, além da expropriação do avô de Clara, é o intenso influxo de novos moradores na vila local, com destaque para os garimpeiros e trabalhadores associados e às prostitutas que servem principalmente aos primeiros.
O resto da trama é irrelevante, é uma versão brasileira d’O Conde de Monte Cristo: Clara consegue fugir do hospício com a ajuda de uma velha senhora que se torna sua amiga e a lega suas posses, aí ela volta pro Jalapão com um banho de loja pronta pra se vingar de todo mundo e blá-blá-blá.
Continuei assistindo mesmo depois que voltei pra casa, aproveitando que um amigo com quem morava também tinha começado a vê-la. Aos poucos, porém, fui perdendo a frequência e só fiquei sabendo do final conversando com minha mãe tempos depois. Mais uma vez, apesar do apelo, o formato cobrou seu peso. Os temas interessantes e o apelo geográfico se diluíram no eterno vai e vem e nas repetições e circuladas pra segurar audiência.
Há um pulso rico na novela que se perde nesse processo todo, há algo fora do lugar que faz o potencial não alçar o voo ideal, só não sei o que é.
Para além do que não consigo apontar que falta em O Outro Lado do Paraíso, martelei os problemas do formato tradicional das novelas como um limitador narrativo. Discuti longamente com amigos mais de uma vez sobre como as grandes histórias da teledramaturgia brasileira se converteriam com relativa facilidade de meros fenômenos televisivos em verdadeiros marcos culturais apenas com um esforço de edição. Não seria simples nem fácil, mas só de editar seu volume maciço, retirando toda a gordura até os ossos, teríamos obras-primas. É como se toda boa novela fosse um diamante bruto esperando para ser lapidado.
Muitas dariam ótimas séries, variando entre longas e curtas conforme a proeza do dramaturgo em dar substância concreta ao material original. Succession e This Is Us nada mais são do que gringos copiando nossas novelas das oito/nove mais medianas. Algumas outras dariam excelentes filmes, evitando lenga-lenga, o humor de repetição picaresco e a constante reiteração de algum elemento que fez sucesso com o público. Uma fatia minúscula, talvez, renderia livros primorosos.
Veja bem, não estou falando do caminho usual, como as peças de Dias Gomes ou os romances de Jorge Amado que viraram novelas célebres. Estou falando de se novelas fossem livros. E trago aqui um exemplo de como O Outro Lado do Paraíso poderia ser, numa aproximação forçada, se fosse o caso.
Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios é narrado por Cauby, um fotógrafo paulista com circulação internacional que se embrenha num lugarejo em algum canto do Pará para produzir o material encomendado por uma prestigiosa fundação francesa. Ao sair do fotojornalismo, Cauby fez seu nome com registros de populações marginais pelo mundo, em especial de operários e prostitutas, tendo um livro inteiro dedicado a elas em sua bagagem profissional. É o que ele estava em busca quando se alojou no Pará, mas acabou encontrando outra coisa tão preciosa que o fez atravessar o limiar da morte.
Enquanto nos narra suas peripécias, Cauby vive na pensão da dona Jane. Um dia, porém, tempos antes, ele tinha uma casa por ali. Antes de morrer, no caso. Ao longo dos dias, Cauby acompanha seu Altino, outro hóspede, na recontagem de sua grande saga de amor não correspondido para um menino que vai lá quase todos os dias e fica tão entranhado na narrativa que decide transformá-la em livro. E é aí que sua história começa a se desvelar. Inspirado no amor puro e arrebatador de Altino, Cauby começa a puxar o longo e entranhado fio de Ariadne de sua memória para recontar sua própria saga, a mortal doença que o acometeu em meio à vida ali na vila: a paixão.
O conto de Altino é ótimo (e terrível), mas não nos interessa aqui. Recomendo que busque a leitura.
Cauby chegou à cidadezinha no Pará já focando em seu livro. Vivendo do dinheiro adiantado pela instituição e do resto de uma herança, ele se entrega a uma vida tranquila no local depois de viver em São Paulo e rodar o mundo. Tudo sai do eixo quando conhece Lavínia, que não é uma mulher senão a encarnação do desejo a seus olhos. Os dois se conhecem na loja de Chang, “o china”, fotógrafo e dono da loja de suprimentos e serviços do ramo, ambos indo buscar fotos que tinham deixado para revelar.
Pouco separa o primeiro gracejo do caso flamejante que estabelecem. No entanto, onde há puro calor, Cauby também encontra cavidades glaciais. Lavínia não é uma só mulher, vivendo entre duas facetas radicalmente opostas. A figura solar, fogosa e impulsiva com quem primeiro trava contato é quem ele acaba apelidando jocosamente de Shirley, aquela que o busca e que, quando se enfurna em sua casa, torna impossível qualquer momento vestido. Sua contraparte é uma Lavínia pudica, retraída e sorumbática, que só o encontra por não conseguir refrear o sentimento que passa a alimentar, mas presa na sensação de que o que fazem é errado.
Não é à toa que ela se sente assim. Acontece que Lavínia é casada com o pastor Ernani, um figurão de uma igreja evangélica que se instala na região e é muito apreciado pelos moradores. Os dois se conheceram em Vitória, no Espírito Santo, quando o pastor, já há anos viúvo, vistoriava a obra de expansão de sua igreja e encontrou Lavínia, que então vivia à míngua se prostituindo. Encantada pela atenção genuína que recebe do pastor, acaba se envolvendo e casando com ele.
Se você acha que essa é a principal tensão que leva a trama, está se limitando. A vila é um barril de pólvora esperando a faísca final muito antes de Cauby e Lavínia serem contaminados pela doença do amor. Nossos heróis vivem num local à beira de uma corrida do ouro, com uma empresa mineradora escavando os ricos veios da região às custas da exploração contumaz de uma quantidade cada vez maior de garimpeiros. Não são poucos os momentos de ameaça de greve geral e franca oposição entre as partes. Pra piorar, o pastor Ernani é o principal mediador do conflito, sendo um sujeito com circulação entre os endinheirados e muito querido pelos trabalhadores.
Não bastasse a tensão usual que marca o cenário, Chang é assassinado quando seu histórico de “trocar serviços” com meninos da vila se torna insuportável para a população. A polícia não faz questão de investigar o caso e os humores continuam afiados como um facão. Ciente de que seu caso com Lavínia há muito não é mais segredo para ninguém, Cauby escolhe ignorar os inúmeros alertas que recebe sobre estar sendo vigiado e sob risco, incluindo o de um matador de aluguel que o visita e dá a entender que ele próprio recebeu uma oferta para o serviço. Pior ainda, Cauby insiste em ficar mesmo depois que Lavínia lhe conta que está grávida e que o filho só pode ser seu, já que seu marido fez uma vasectomia há muitos anos.
Quando o pastor Ernani aparece morto a tiros e a esposa desaparece, numa sucessão de desencontros infelizes, Cauby é linchado por uma multidão de fiéis da igreja que o vê sendo liberado da delegacia. Eis, então, sua anunciada morte. Só que, como é de se esperar, ele nada teve a ver com a tragédia. Ernani foi morto por um pistoleiro contratado pela mineradora logo depois de retornar da viagem na qual levou Lavínia para ser internada num hospício após uma severa crise nervosa que inclusive lhe roubou a memória.
Juntando os cacos e aceitando a vida como um homem entortado mentalmente pelo trauma físico, Cauby escolhe continuar na cidade. Em partes é um desaforo, a vontade de esfregar na cara dos locais que sobreviveu apesar do erro que cometeram. No entanto, o real motivo é que ali é o melhor ponto de estadia para visitar Lavínia no hospital. Ali, então, ele vive como dá, desejando contribuir com sua recuperação e alimentando a esperança de tê-la de volta um dia.
Consegue ver a novela estampada aí? Já está no título, claro, que à primeira lida soa brega mas logo vai se entranhando e se revelando como uma poesia tão lindamente carnal que é contagiante. Marçal Aquino nos entrega todos os elementos essenciais do que faz uma boa história de novela, mas faz tudo de um jeito que é qualquer coisa menos novelesco. Seus personagens protagonizariam uma novela das oito, mas não são arquetípicos nem caricatos. Seu cenário é como a clássica vista alternativa (e pintada como exótica) aos cartões-postais cariocas, mas não é apresentado como uma filmagem aérea só pra fazer pose. Seus temas são universais e extrapoláveis, mas têm sutileza e textura únicas, imbricadas na materialidade da história.
O romance tem um caráter quase episódico, mas sem ser linear e previsível. Aquino conduz uma narrativa em espiral fragmentada, indo e voltando, suscitando e seduzindo com maestria impressionante. Cauby é um perfeito narrador não confiável ao mesmo tempo em que é claramente honesto com suas faltas e limites, jamais se pintando como algo além de um (semi)cretino apaixonado. Lavínia é muito mais do que uma devassa presa a um casamento religioso e seu problema é muito mais que um estigma, assim como o pastor Ernani não é apenas um empecilho para o romance central ou um estereótipo de moralismo.
Tudo tem nuance e contradição, aventura e tragédia, potencial e frustração. É um thriller no sentido mais amplo, pois o que mais faz é causar emoções. É um thriller no sentido policial aventuresco, pois trabalha o ambiente em suas tensões locais e os mistérios e lacunas que movem tantas coisas em seus fluxos. Principalmente, nunca perdemos de vista a intensidade da pergunta: o que raios aconteceu que acabou massacrando Cauby no processo e por que ele insiste em continuar na cidade? Quando recebemos as respostas, a sensação é exatamente o sublime que gostaríamos que todo final de novela fosse ao invés de um pastelão de ar em forma de audiovisual.
Falei sobre a materialidade da história, e acho que talvez essa seja a resposta para meu incômodo enquanto assistia O Outro Lado do Paraíso. Enquanto arte em si mesma, as novelas parecem imateriais, sublimações opacas de fontes inócuas. Os mocinhos são estéreis, os vilões inspiram preguiça. Há aqueles que são carismáticos e promovem o famoso efeito de “amamos odiar”, mas não quer dizer que sejam personagens bem construídos, muitas vezes são apenas encarnações do mal.
Não digo isso querendo apontar que novelas são uma forma inferior de arte; ao contrário, defendo até que servem como um excelente registro de imaginário, ao menos para certas questões. A materialidade dos temas e da subjetividade dos personagens, porém, não é um desses fatores. E foi traçando paralelos entre histórias centradas em elementos similares que me dei conta disso.
No caso, foi quando li o quadrinho Três Buracos, do artista paraibano Shiko. Veja só, o nome da história é o nome do lugar onde ela se passa, advindo do fato de ser um vilarejo levantado no entremeio entre o garimpo, o puteiro e o cemitério. Soa familiar? A protagonista é Tânia, que cresceu por ali junto ao irmão sob a sombra da morte do pai, o antigo delegado local, que foi executado depois de encontrar e esconder “a maior turmalina que já brilhou no mundo”. Obcecada por encontrar o tesouro enterrado do pai, Tânia aceita se meter no mais novo plano de seu irmão, Canhoto, que fugiu da prisão e quer roubar um banco pra se fazer de vez na vida. Junto a eles está Cleonice, companheira de Tânia, que não aguenta mais viver em Três Buracos em função da fissura da outra com o legado sombrio do pai.
O quadrinho de Shiko é a versão de terror de O Outro Lado do Paraíso e Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios, mas é um terror existencial, e do tipo que só pode ser bem explorado diante dos fantasmas que assolam as realidades sociais mais delicadas, como Mariana Enriquez já bem nos ensinou. A questão aí é que não existe nenhum contexto de garimpo que não seja de absoluta precariedade a todos os envolvidos.
Marçal Aquino escreve uma tórrida história de amor digna das melhores novelas, mas está muito ciente disso quando constrói sua ambientação como um cenário de tensão pura. Cauby não é simplesmente injustiçado por uma turba de religiosos fanáticos. Ele é a vítima de um vasto esquema intrincado de circunstâncias que configuram uma realidade social extremamente problemática.
O garimpo é um processo de devorar a terra. Não há técnica de se peneirar minérios preciosos que não produza um alto grau de degradação ambiental e danos ocupacionais aos envolvidos. A mineração, artesanal ou mecanizada, é literalmente o processo de eviscerar o solo para retirar as substâncias desejadas dali. Pode ser um procedimento cirúrgico mais afunilado ou uma rasgadura violenta, o princípio e o resultado são os mesmos.
A terrível ironia por trás disso é que o elemento terra, simbolicamente, representa a materialidade, a sustentação física sobre a qual se estrutura a estabilidade emocional (água), a clareza mental (ar) e o ímpeto da inspiração (fogo). Sem matéria sólida não há vida. Em termos mundanos, antes de ter a terapia em dia, as ideias no lugar e os desejos a perseguir, é preciso estar de barriga cheia. Sem as mínimas condições materiais de existência, não há vida que se sustente. O que também inclui, você bem sabe, meios financeiros.
O garimpo é uma atividade por definição predatória, a predação da própria terra e do ambiente que se forma e floresce a partir dela. No processo de moer a carne do mundo, mói-se também a carne das pessoas envolvidas nisso, sejam elas os próprios garimpeiros, sejam outros sujeitos vistos como empecilhos para a busca sedenta pelo ganho material (como indígenas em suas tão cobiçadas terras ancestrais).
Seja no romance de Aquino ou em Três Buracos, a atmosfera da realidade social local é sufocante. A tensão é física, a degradação é palpável. São ambientes poeirentos, de casas aleijadas pela ação do clima e dos resíduos da mineração, os corpos dos moradores emplastrados na sujeira e na fumaça aventadas a seu redor. É isso, poeira, porra!
Estou sentado num restaurante à beira da estrada. Os caminhões passam e fazem a brita vibrar. Apesar da temperatura amena, volto para casa todos os dias do trabalho de campo me sentindo sujo, empapuçado. Mas é óbvio que me sinto assim, passo o dia todo sendo alvejado pelo pó que os caminhões levantam ao voar na ultrapassagem. Foda-se o peso da carga e o risco, é preciso garantir a entrega do serviço e, com isso, o pagamento por ele. Cruzaremos todos os limites necessários para tal.
No Brasil, a desolação tem cor e cara de poeira. Nada pode ser realmente negativo se não for poeirento, empoeirado, encardido pelo revirar constante da terra. Somos refugo do solo, dependemos dele pra viver e o agredimos como natureza última. Talvez por isso O Outro Lado do Paraíso destoe em seu tom, a vila, o puteiro e o garimpo são limpos, não há poeira.
Como pode uma história centrada no roubo de uma terra que é constantemente revirada e mutilada não nos trazer a imagem e a sensação de sujeira constante? Como pode uma vilã toda grã-fina visitar o campo de extração de esmeraldas e só parecer diferente dos locais porque usa roupas brancas e joias? Como pode ela falar com o capataz do garimpo e os dois parecerem falar o mesmo idioma senão por parcas diferenças de oralidade?
Se a terra é a carne do mundo, o garimpo é a extração de suas vísceras. Como pode uma história pautada nisso ser tudo menos visceral?
O título desta edição vem de “Wolf Down the Earth”, faixa do álbum The Way of All Flesh, de 2008, da banda francesa de death metal progressivo Gojira. Em inglês, a expressão “wolf down” se refere a comer algo com a fome de um lobo, seja literal ou simbolicamente. A letra da música usa isso pra falar sobre a devastação ambiental do planeta em nome da riqueza material. Acho que a associação é bem clara aí.
O texto base desta edição é uma resenha de Eu receberia as piores notícias e seus lindos lábios, romance do autor brasileiro Marçal Aquino, lançado em 2005 pela editora Companhia das Letras. O quadrinho Três Buracos é escrito e desenhado pelo artista Shiko, publicado em 2019 pela infelizmente extinta editora Mino. A novela O Outro Lado do Paraíso foi criada por Walcyr Carrasco e transmitida pela TV Globo entre outubro de 2017 e maio de 2018.
Quer dizer, o ensaio surgiu com a resenha e foi evoluindo, enquanto ideia, pra abarcar tanto a novela quanto o quadrinho a partir da curiosa recorrência da estrutura em três pilares em torno de áreas de garimpo. Meu objetivo era pensar como a sanha materialista por riqueza envolve um processo inexorável de degradação ambiental e espiritual, no sentido amplo. Restrições de tempo e limitações criativas me atrapalharam no processo e ficou meio que uma crítica ao formato de novelas, que não era bem minha intenção. Espero fazer uma revisão adequada no futuro.
Esta edição da Galimatias foi concebida e escrita por Jotapê Russo, este que vos fala. A identidade visual e as ilustrações são de Raíssa Barbosa, cuja principal falha de caráter é não ter assistido novelas ao longo da vida.
Obrigado pela leitura. Espero que esta garimpada de amores e agruras tenha sido gentil com seu tempo.




