Demônios de uniforme
Ou o desarranjo em forma de nação
Nesses anos desde que aprendi a diferenciar os livros ruins dos bons, uma das sensações mais aprazíveis que descobri é a de experienciar em tempo real uma obra com potencial para se tornar uma favorita. Acontece com frequência de isso convergir com a instigação constante a futuras análises, os fios se oferecendo para ser puxados, as camadas pedindo pela escavação. Um caso exemplar muito recente é Babel, de R. F. Kuang, que teve uma das trajetórias mais rápidas entre leitura e publicação de ensaios a seu respeito.
Acho que a sensação é especial quando vem de uma fonte inusitada, como o livro que discutiremos hoje, Aquele Mundo de Vasabarros, de José J. Veiga. Leio o autor há muitos anos, desde que me iniciei no realismo mágico com Gabriel García Márquez e seus Cem Anos de Solidão. Como diversos autores que não se limitam às margens estreitas do realismo, Veiga foi enquadrado nesse gênero polêmico e muito disputado. Sua obra mais célebre talvez seja Os Cavalinhos de Platiplanto, coletânea de contos que o lançou na cena nacional com histórias calcadas no fantástico mundano em meio à vida de pés sujos nos interiores do Brasil.
Pessoalmente, considero Veiga inclassificável, quase aos moldes de seu amigo que também fez algum barulho com seus livros, um tal de João Guimarães Rosa. Em meu catálogo, aposto no regionalismo quase sempre por me sentir tão inserido em seus cenários que me são tão familiares. Veiga era goiano, e todos sabem que Goiás é o terreno baldio de Minas Gerais, então conheço bem as paragens das histórias e sinto carinho especial pela sensação que elas me evocam. Mesmo assim, passa longe de ser o bastante. Por mais fantasiosa que seja a vida imaginativa nos rincões mineiro-goianos, é preciso apontar o caráter suprarreal das narrativas de Veiga, o que me leva ao guarda-chuva meio esgarçado do surrealismo. Isso tudo, claro, até conhecer uma tal de Vasabarros.
Aquele Mundo de Vasabarros trata do titular microcosmo perdido em algum canto nos sertões do Brasil. Não se trata de uma cidade ou de uma região, é um mundo próprio, como o título indica de forma mais clara do que apenas aparente qualificação poética. Acompanhamos as desventuras e vicissitudes dos personagens no complexo que Veiga nomeia campongue, um “vasto conjunto de prédios grandes, médios, pequenos, altos, baixos, que de longe davam a impressão de massa inteiriça”.
Vasabarros é um mundo sob domínio dos Simpatia, uma dinastia que exerce seu governo desde que se há lembrança. Seu governo é mantido por uma estrutura estatal de cunho militar, ainda que muito calcada em certa jurisprudência. Há três níveis estruturais no campongue: o porão, onde vive a população de modo geral, incluindo os soldados rasos; o andar intermediário, reservado apenas à família Simpatia; e o nível superior, onde os funcionários do alto escalão do governo mantêm a máquina operando.
A narrativa começa episódica, apresentando o campongue e alguns de seus personagens mais destacados, como o atual Simpatia, Estêvão IV, que anda meio caquético e ruim das ideias, chegando a se mijar com tanta frequência que é chamado de Mijão na boca miúda. Seu governo é estabelecido a partir de um conselho, no qual as figuras mais importantes são Zinibaldo, o senesca-mor, que cuida de todas as formalidades estatais e do cumprimento da lei, e Gregóvio, o chefe de segurança, que que gosta de comandar os praças do exército estando mais próximo ao rés do chão. O soberano é casado com Dona Antília, chamada honorificamente de Simpateca, com a qual tem dois filhos, Andreu, seu herdeiro, e Mognólia.
Logo no início acompanhamos os preparativos para o famoso Enxoto da Aranhas, a cerimônia anual celebrada no 1° de abril em que todos os moradores do campongue pegavam suas vassouras e saíam varrendo todos os cantos possíveis. No meio da confusão cheia de algazarra, o jovem Genísio, um ajudante de despensa dos porões do campongue, acaba atingindo o cavalariço Benjó com sua vassoura, levando-o a um desejo irrefreável de punir o mais novo. Além de ser impedido por outros enxotadores, Benjó teve o azar de o evento ser testemunhado por um fiscal que passava ao largo, levando-o a ser sentenciado à punição na barrica, da qual ninguém nunca saiu vivo na história registrada.
No banquete posterior ao Enxoto, o cachorrinho de Mognólia, Ringo, escapa, deixando a jovem em prantos. Mal sabe ela que ele é resgatado justo por Genísio, que voltava para seu alojamento atordoado pelos eventos do dia. Em paralelo, Benjó se torna o primeiro a sair da barrica com vida graças a uma operação de resgate promovida por rebeldes clandestinos em Vasabarros.
Esse cenário inusitado é a chave para um lento desenrolar de eventos que revela uma trama cada vez maior, através da qual testemunhamos a derrocada final do Simpatia. Seu estado deteriorado é bem conhecido pelos militares de modo geral, o que gera apreensão no conselho jurídico por conta da ascensão de Gregóvio nos favores dos praças. Zinibaldo, como principal guardião da jurisprudência do Estado, tenta coordenar um esforço contrário para promover uma sucessão correta, passando o poder a Andreu, filho do Simpatia, ainda que a lei tenha que ser apertada para acelerar o processo.
Para isso, ele se alia a Dona Antília, a Simpateca, que primeiro vemos como uma mulher frívola e cheia de caprichos, vagando pelo campongue cantando suas árias que ninguém suporta, apenas para descobrir que tem consciência de tudo ao redor. Ela se torna a principal articuladora da sucessão, disfarçando movimentações e encontros com seus interesses esdrúxulos para repelir a atenção alheia. Apesar de ver a miséria da população de Vasabarros e se indignar com isso, Andreu não deseja ser o novo Simpatia, precisando que a mãe o convença e injete nele o ânimo para se motivar a promover as mudanças que enxerga serem necessárias.
Descobrimos que os rebeldes são mantidos pela facção de Zinibaldo como forma de contrapor o peso da lealdade dos praças à liderança de Gregóvio, o que leva a um movimento coordenado de gerar confusão geral no campongue a ponto de declarar o Simpatia inapto para lidar com a crise e colocar Andreu no cargo. Ao mesmo tempo, Gregóvio e seus cupinchas têm interesses análogos, desejando destituir o Simpatia com a balbúrdia e instaurar um regime militar pleno.
Ao final, numa sequência de erros e entrecruzamentos, a facção de Zinibaldo consegue vencer a disputa e ascender Andreu ao cargo. Intimidado pela posição, o jovem vai adiando as mudanças que pretendia promover e se torna relapso e complacente, imergindo em atividades recreativas por vezes cruéis, em especial ao trazer Benjó ao seu séquito mais íntimo. Depois de resgatado no início da história, o cavalariço se tornou um rebelde fervoroso e chamou a atenção do novo Simpatia por seu cuidado com os cavalos, animais da preferência do jovem soberano. No processo, Gregóvio é perdoado por sua trama contra o Simpatia anterior e se aposenta, ao passo que Zinibaldo se torna profundamente desgostoso com o marasmo do novo governo.
Nos despedimos de Vasabarros em um diálogo doloroso entre Dona Antília e Mognólia, quando a jovem confessa à mãe seu desejo de fugir de Vasabarros junto a Genísio, que se juntou à trama do lado dos Simpatia após o retorno de Ringo à sua dona. Então descobrimos que a vida toda a Simpateca se viu de mãos atadas em seu papel de esposa do Simpatia, sentindo que lhe cabia apenas resistir e torcer para que a criação que pretendia dar aos filhos seria a chave para melhorar a vida no campongue. Mognólia decide ficar, aceitando a mesma sina da mãe.
Como aludi no começo do texto, ler Vasabarros foi a experiência de descobrir um novo favorito em tempo real. Até então, como leitor fiel de Veiga, já tinha sido impactado por vários de seus contos nas coletâneas que li, mas os romances tinham deixado a desejar em termos de efeito. Ao fim da leitura deste último, cheguei à conclusão que só posso ter lido os outros no momento errado, pois é impossível que tamanha discrepância seja explicável por disparidade entre os textos em si.
Não só Vasabarros se tornou meu Veiga favorito como ascendeu como um foguete ranking de obras nacionais em minha lista. A forma como o autor comunga com a linguagem, seu uso de arcanismos, corruptelas e neologismos inteligentes é hipnótica. O destaque mais evidente está nos nomes dos personagens, todos próximos a algum já que conhecemos mas distintos ainda assim. O verdadeiro caldo, porém, está nas palavras comuns.
Falando dos preparos para o Enxoto das Aranhas (sendo que “enxoto” já é um desses termos), ele usa o termo “xipexipe” como um estado de preparo ideal: “tudo tinha que estar xipexipe antes das sete da manhã”. Não faço ideia do que é isso, mas é óbvio que semanticamente equivale a deixar algo “nos trinques”. Logo em seguida, vemos “esparramo” como um termo geminado de “algazarra”.
Não obstante, assim como Evandro Affonso Ferreira em seu Rei Revés, Veiga não faz mero floreio de palavras estranhas, a chave está em seu manejo da língua na construção de uma linguagem própria. Seu narrador soa como alguém buscando os relatos de Vasabarros para nos trazer uma aventura digna de Marco Polo, como se estivéssemos prestes a receber um misto de conto fabular com retrato de exploração.
A leitura usual que se faz de Aquele Mundo de Vasabarros é a da crítica política. Publicado em 1982, o romance é colocado junto de A Hora dos Ruminantes e Sombra de Reis Barbudos como o fechamento do “ciclo sombrio” de Veiga, suas críticas ao período da ditadura militar brasileira. Diferente dos dois anteriores, porém, Vasabarros seria mais distópico do que surrealista, mais sátira do que alegoria.
Como de costume por aqui, não é o caso de eu vir cagar regra e dizer que é uma visão errônea ou limítrofe. Como de costume, é o caso de eu tentar cavar o buraco mais fundo e buscar mais espraiamento e menos facilidade na interpretação. É evidente que Veiga está criticando o regime militar quando retrata os soldados como imbecis e chega a nomear o séquito dos disfarçados à paisana de “mijocas” e o dos praças fardados de “merdecas”. Mas o que pode haver para além do óbvio?
O tempo todo durante a leitura, Vasabarros me gritou teatralidade e absurdo. Tudo é exagerado e estapafúrdio, efeito garantido pela construção de linguagem que fiz questão de demarcar primeiro. Contudo, os eventos em si não são surreais, os personagens não são meros bonecos. Parece que há algo naquilo que os move que faz tudo degringolar. É nas interações, no desenrolar de cada movimento em escala, que o absurdo emerge.
Acompanhamos uma narrativa labiríntica, uma suave espiral pelo complexo obtuso e sorumbático do campongue que nos permite observar como suas dinâmicas mundanas estão intrinsecamente conectadas aos meandros do poder. Para além de mera crítica aos militares em si, Veiga arma um tabuleiro narrativo quase lúdico para esquadrinhar a política institucional como um permanente teatro do absurdo.
O regime de Vasabarros é completamente autocentrado e operado a partir de um espetáculo constante focado na impressão causada e na apreendida. Não há materialidade na política senão nas relações interpessoais, que estão sempre sujeitas aos caprichos mais arbitrários dos sujeitos em posições de poder. Não sabemos do que vivem os moradores locais senão que suas vidas são determinadas pelo esforço de sobreviver ao próprio regime. Não há lastro para os revoltosos e nem para os radicais, tudo se sintetiza na postura de Zinibaldo ao defender a garantia da manutenção da lei e dos costumes (que não se diferenciam aqui): as coisas são como são pois são como devem ser.
E veja só, isso não é mera conjectura minha, está nas palavras do próprio autor:
Se os dias em Vasabarros eram cinzentos e pesados, pelo menos havia atividade para preencher as horas, cada um tinha a sua função e a desempenhava, nem que a função em muitos casos fosse apenas fazer gestos, executar movimentos, cumprir rituais, numa rotina que vinha de longe, desde os tempos de Costadura, o Comedor de Jaca, como se dizia lá quando se queria referir a costumes muito antigos, porque o Costadura fora o consolidador daquilo, e o que havia antes pertencia à proto-história do lugar. O pessoal de Vasabarros falava no Costadura como os húngaros falam no rei Estevão, os poloneses em Venceslau, os portugueses em Afonso Henriques. Antes do Costadura, como antes desses outros, o que havia era a nebulosa primordial, que eles afeiçoaram. (p.36, destaque meu)
Foi difícil não associar a leitura à grande obra do já aparecido antropólogo Clifford Geertz, Negara, na qual ele analisa as cerimônias dos reinos balineses do século XIX como um monumental processo ritual que inverte a lógica tradicional do pensamento político. Para Geertz, “o poder serve à pompa”, e não o contrário, configurando o que chama de “Estado teatro”, a constante mobilização simbólica como forma de realização material da política.
Geertz nunca foi tão weberiano em suas ideias quanto ao fundamentar o Negara. A ideia que rege o cerimonial é a encenação de códigos imateriais que dão sentido às coisas do mundo físico. No entanto, na medida em que não existe materialidade desprovida de entendimento, a cerimônia se torna a configuração da própria matéria. Essa é uma forma antropológica de falar do que Max Weber entende por seus famosos tipos puros de dominação.
Weber se consolidou como sociólogo ao pensar a política como um fazer, uma operação constante que é socialmente motivada e codificada, servindo de inspiração direta para o que Foucault viria a definir depois, como passeamos por aqui. Parte de seu pensamento está erigida a partir da ideia de três tipos de dominação: a tradicional, a racional-burocrática e a carismática. Este último, você deve se lembrar, é aquele que tentei elaborar na última edição, a capacidade de gerar afetos nas pessoas e manejá-los conforme as próprias visões e interesses.
O primeiro tipo é o exercício do poder centrado em uma instituição que se mantém no posto simplesmente por, como o nome indica, ser uma tradição já estabelecida. A existência de monarquias na Europa é o melhor exemplo. A família real britânica é a mais famosa, e também a mais novelesca, ofuscando o fato de que países nem um pouco obscuros como Espanha, Bélgica, Holanda, Dinamarca, Suécia e Noruega ainda são monarquias. Existe coisa mais sem sentido do que isso? Se o regime parlamentarista desses países já é quase tão tradicional quanto as coroas, por que não acabam com isso de uma vez? Podemos tecer várias análises sociológicas, mas o motivo principal é o mais simples: porque é assim há muito tempo e não faz diferença mudar.
Todas as monarquias europeias remanescentes esvaziaram os monarcas de poder de ação concreto, mas isso não impede que as famílias reais continuem a ter poder político, uma vez que este é derivado da capacidade de exercer influência. Destaca-se sempre, contudo, que há ainda um papel cerimonial, algo que nos escapa por completo por estarmos tão distantes e vermos essa instituição como a coisa defasada que ela é. Ao performarem seus teatrinhos monárquicos, essas pessoas funcionam como uma espécie de manifestação física da própria nação. O rei ou a rainha são como uma encarnação do país, o centro do potencial simbólico emanado do povo. A extensão e a dimensão dos efeitos dessa função variam de lugar para lugar, mas, ao fim e ao cabo, é o papel atribuído a eles na medida em que são desprovidos da possibilidade de viverem como pessoas comuns.
O segundo tipo de dominação é aquele que se vê nos parlamentos e nas instituições que conformam o Estado. Se nos tempos do absolutismo o monarca era a própria lei, seus desejos e caprichos eram a régua da nação, os processos históricos retiraram esse poder de uma pessoa e o materializaram em outros canais mais espraiados. O caráter definidor da dominação racional-burocrática é a impessoalidade do poder. O respeito e a obediência às normas instituídas se deve ao entendimento comum (acordado ou imposto) de que é a função que exerce o poder, e não a pessoa. Um sujeito em uma posição formal de poder faz as coisas acontecerem através de seu cargo. É a lógica do exército: você obedece à patente, independente de seu apreço pelo homem que a carrega.
A construção de cerimônias e normativas codificadas juridicamente é o caminho pelo qual se busca consolidar um centro de poder, esse local não geográfico do qual pulsa o fluxo que faz as coisas se materializarem no mundo. A melhor forma de fazer isso é estabelecer rituais que, uma vez entranhados nos processos sociais, se tornam eles próprios a materialidade do poder que buscam representar. Uma cerimônia de posse, a entrega de uma comenda, o comparecimento de um líder numa ocasião específica (uma cúpula, um funeral, uma área de acidente), tudo isso tem por objetivo encenar o sentido de que uma dada pessoa está imbuída de poder de modo a fazer as coisas acontecerem. Como, e se, isso vai se dar é outra história.
Em Vasabarros, Veiga entende isso tão perfeitamente que entrelaça os três tipos de dominação na trama. O Simpatia é uma instituição encarnada, mantido em sua posição por um regime de normas codificadas e fiscalizadas por um corpo de cargos pensados especificamente para tal. Ou seja, uma tradição que é garantida por uma institucionalidade racional-burocrática. A estabilidade de seu governo, porém, está sujeita a seu próprio carisma, que representa sua capacidade de manter a máquina operando em sua função de modo fluido. Como Estêvão IV é o líder de um reinado infame, seu apelo entre os súditos que fazem o Estado funcionar é negativo. Os praças direcionam seus favores a Gregóvio, alguém com que se identificam e que os faz sentir reconhecidos e validados a ponto de colocar a sucessão tradicional em risco.
Ainda assim, a coisa passa longe de ser tão simples quanto uma rusga no topo do poder e como ele é visto. O aspecto turriforme do campongue traz logo alusões ao panóptico de Bentham e a lógica da vigilância punitivista discutida também por Foucault, mas isso se estende ao comportamento moral geral.
A vida em Vasabarros tinha mudado muito desde a assunção do atual Simpatia. Antes ainda havia um pouco de claridade, havia relativa alegria nas pessoas, e um certo entusiasmo pelo que elas faziam, apesar da preocupação doentia com os regulamentos, esse um mal de todos os tempos. Mas com o novo Simpatia o arrocho aumentou, as pessoas foram perdendo os restos de alegria, de cordialidade, de confiança em si mesmas; instalou-se um regime de meticulosa vigilância, o povo se fechou em seus cubículos amedrontado, desconfiado, desinteressado, quem tinha um pensamento guardava bem guardado. Todo mundo vivia para dentro, pagava o que era exigido em trabalho e não se abria com ninguém, o amigo mais íntimo de ontem podia agora ser um mijoca, elemento mais perigoso do que o merdeca porque andava à paisana. Que diferença do tempo em que viajantes famosos de outras terras se entusiasmaram com o clima humano de Vasabarros e profetizaram um futuro luminoso para ele. Vasabarros agora era uma lembrança dolente e uma realidade acabrunhante. (p.24-25, destaque meu)
Não se trata simplesmente de estabelecer um regime opressor e um cenário distópico em que a miséria é infligida ao povo. Vasabarros é o retrato de uma cosmovisão completa, é a perscrutação pelas minúcias de uma sociedade hobbesiana em seu caráter mais íntimo, em que todo sujeito é um potencial inimigo e a vida está sempre em risco.
Veja, Andreu se deixa corromper porque é trabalhoso demais levar as coisas para outro rumo. Para tal, ele precisaria reorganizar o sentido do mundo existente de modo a criar um novo, distinção essa que depende de sua própria capacidade de pensar um mundo diferente do atual. Ainda durante a trama para a sucessão, Andreu comenta com Genísio sobre como outros lugares fora de Vasabarros devem ser melhores do que ali. O ajudante de despensa retruca o jovem herdeiro dizendo que, se assim é de fato, é porque as pessoas que vivem nesses outros lugares os fazem ser melhores com suas próprias mãos. Travado entre seguir a institucionalidade e assumir a responsabilidade para si, Andreu vai adiando as reformas até que o status quo passa a lhe ser agradável.
O mesmo vale para sua irmã, que desiste de fugir ao ser convencida pela complacência da mãe, que aposta tudo na esperança de algo ser diferente no futuro. Há algo de muito errado com o mundo e alguém deveria fazer algo a respeito, alguma outra pessoa que não eu. O “fardo” do poder herdado é que há pouco a se constituir de material, ainda mais numa estrutura pensada em sua automanutenção imaterial.
Vasabarros é de fato uma sátira calcinante do regime militar brasileiro, não há dúvidas. O estado de vigilância e paranoia generalizados ilustra muito bem o pensamento militar, no qual se confia no cargo mas desconfia da pessoa, no qual a vida do companheiro está em suas mãos e a sua nas dele e não há garantias de que todos têm o mesmo grau de competência.
Não obstante, Veiga vai muito além do que tirar sarro de merdecas e mijocas. Seu romance, que considero seu mais grandioso, é uma impressionante (e venenosa) análise do funcionamento da política institucional em suas dimensões mais íntimas, eviscerando seu caráter farsesco, e como ela se imiscui com as vidas interpessoais de agentes políticos, dos mais miúdos aos mais graúdos. Se bem que, ao final, descobrimos que não há agentes graúdos de fato, pois estão todos infinitamente tomados por uma miudeza de espírito que traz profundo desalento. Ainda assim, é impossível não sorrir diante da realização absurda de ver construído e encenado um espetáculo tão perfeito.
O título desta edição vem dos versos de “Face Down”, faixa do álbum homônimo da banda estadunidense Killer Be Killed, de 2014. A letra é uma cusparada na polícia como instituição intrinsecamente violenta. Ainda que não seja o tema em específico aqui, a lógica por trás de policiais e militares é muito similar e acho que ambos os grupos merecem o mesmo nível de saco de merda na cara.
O texto base desta edição é uma resenha do livro Aquele Mundo de Vasabarros, do autor goiano José J. Veiga. A publicação original é de 1982, enquanto a edição mais recente (e a que li) é de 2023 pela Companhia das Letras.
Minha leitura da obra é feita com base no antropólogo estadunidense Clifford Geertz e no sociólogo alemão Max Weber. Do primeiro, cito Negara: The Theatre State in Nineteenth-Century Bali, sua grande obra publicada em 1981 pela Princeton University Press. Do segundo, me baseio em parte do material encontrado no volume 1 da grande coletânea Economia e Sociedade, republicada mais recentemente pela Editora UnB em 2015 com tradução de Regis Barbosa e Karen Elsabe Barbosa e revisão técnica de Gabriel Cohn.
Como menciono na abertura do texto, a ideia da discussão sobre Vasabarros surgiu já no meio da leitura, o que só me fez empolgar mais com o processo. Queria ter entrado em mais detalhes e minúcias tanto do texto quanto das referências, construindo um ensaio mais expansivo e profundo, mas já fico satisfeito que consegui uma resenha encorpada num momento em que o processo produtivo anda truncado.
Esta edição da Galimatias foi concebida e escrita por Jotapê Russo, este que vos fala. A identidade visual e as ilustrações são de Raíssa Barbosa, uma mijoca de ótimos disfarces.
Obrigado pela leitura. Espero que este enxoto de milicos tenha sido gentil com seu tempo.




