Corvejando ruína
Ou o mau agouro em toda profecia
Em tempos de Copa do Mundo, as coisas adquirem uma perspectiva diferente. É de se esperar, como todos os marcos cíclicos similares. A vida ganha um enquadramento próprio, reposicionando-se comparativamente dentro dos parâmetros do ciclo da vez. A cada quatro anos, é inevitável fazer uma revisão de como tudo andou e o contraste com as ocasiões anteriores. É o meu caso, pelo menos.
A Copa está no cerne de minha relação com esportes, com o futebol sendo o principal, claro. As vagas lembranças do fatídico penta, em 2002, são algumas de minhas mais antigas. A duas de mais destaque são a sensação de estranheza da magra vitória por 1 a 0 contra a Turquia nas semifinais depois de normalizar a percepção de dominância ao longo do torneio e meu pai me explicando qual o termo para um time cinco vezes campeão enquanto assistíamos a propaganda do Itaú adicionando a quinta estrela em cima do escudo da seleção.
A Copa de 2006 veio com um trabalho de escola sobre todas as edições do torneio, que rendeu uma encadernação da grossura de um tijolo e cimentou meu conhecimento histórico por muitos anos. Eu ainda entendia pouco a mais do esporte em relação à anterior, mas já tinha muito mais interesse ativo. Foi quando adquiri meu único álbum da Copa, que ficou a poucas figurinhas de ser completado, e passei a ter alguma noção de outras seleções. O legado direto do evento foi começar a acompanhar campeonatos europeus, que passavam timidamente em dois horários nos fins de semana da Band, além de expandir minha zona de times selecionáveis no então Winning Eleven 10.
A transição até 2010 marca exatamente meu crescente apreço pelo futebol e o grande salto de conhecimento que me levou à Copa da África do Sul sabendo muita coisa de muitas seleções e querendo ainda mais, chegando ao ponto de comprar guias para o torneio na banca da praça. Assisti a quase todos os jogos e por anos lembrei de boa parte dos resultados. Foi a primeira vez que respirei um mundial a plenos pulmões.
O ciclo seguinte, porém, foi de declínio. Deixei de torcer pela seleção brasileira quando vi o time perder todos os quatro pênaltis que chutou na disputa das quartas de final da Copa América de 2011 contra o Paraguai. Considerei ridículo demais investir energia num grupo de profissionais que se rebaixava nesse grau. Minha relação com o futebol em si passou por um desencantamento global mesmo acompanhando meu time de infância, o Cruzeiro Esporte Clube de Belo Horizonte, sendo bicampeão brasileiro em 2013 e 2014. Lembro do jogo do primeiro dos dois títulos (que foi mais moral do que matemático, pois o caneco só veio na rodada do meio de semana) contra o Grêmio, em meados de novembro, em que voltamos correndo da cidade vizinha onde eu prestava vestibular para ver o segundo tempo.
Por consequência, a Copa de 2014, a verdadeira e única Copa das Copas, passou longe do meu raio de apreciação. Sim, eu sei, logo a Copa no Brasil. Vi alguns jogos e acompanhei um pouco à distância, dedicando só atenção de fato quando o 7 a 1 começava a se desenrolar diante dos olhos de uma nação incrédula. Esse dia foi louco de verdade.
A situação se manteve similar para o ciclo seguinte, ainda mais desligado do futebol e plenamente descrente na capacidade do Brasil de produzir uma seleção capaz de qualquer competitividade. Ainda assim, o bichinho da Copa me mordeu e fui tomado pelo frenesi quando o evento começou. Assisti a toda a fase de grupos com a gula que não sentia desde 2010, aproveitando o acesso recuperado à TV aberta e o envolvimento dos amigos. Lembro de me senti o máximo ao antecipar comentários dos comentaristas e cantar substituições nos jogos mais diversos, como se o conhecimento do esporte estivesse apenas ali esperando para ser reativado. Contudo, como veio, o sentimento se foi. Viajei para a Argentina e o Uruguai bem no meio do mata-mata e me desliguei por completo do mundial.
Até 2022, me reaproximei um pouco do esporte e recebi o evento de braços abertos como um momento de libertação e entretenimento após um ano longuíssimo de escrita na dissertação do mestrado. Assisti tantos jogos quanto consegui, mas a lembrança ficou enevoada pela Covid, que me contaminou pela primeira vez bem no momento da Copa, abrindo espaço para que outras coisas, como o casamento de uma amiga, ocupassem o espaço mnemônico. Sei de quase tudo que testemunhei, mas não me lembro de verdade.
Chegamos, enfim, ao fatídico mundial mais extenso e inchado da história, ocorrendo em pleno solo ianque onde o futebol tem tudo menos valor real. Ainda assim, tem sido divertido assistir, resultados malucos e inesperados, poucos empates e muitos gols. Junto com o apreço, uma velha sensação volta a me visitar. Para muitos, é o fantasma da esperança pelo hexa. Não me iludo e nem me importo, devo dizer. Não sei se o Brasil é capaz de juntar uma seleção que instigue uma reconexão da minha parte. Tudo em torno do futebol brasileiro me repele, a começar da camisa e da bandeira, por mais que possam reclamá-la das garras da direita nacional. Não, a sensação que me revisita é um estranho sabor de augúrios suspensos no ar.
Minha relação com a seleção brasileira é a pista para onde o caminho segue. Remoemos brevemente sobre Copa do Mundo ser um torneio muito interessante de ser analisado como um recorte histórico em nossas vidas pessoais, mas ela também o é para um outro artefato histórico: o próprio futebol. Eu poderia falar da evolução do esporte em si, claro, já que o torneio serviu como grande expressão ou o grande definidor de diversas mudanças no longo processo de maturação da modalidade, mas falo de outra questão.
A capacidade ou não de um dado país de reunir uma seleção de jogadores capazes de conquistar a glória máxima no futebol tem a ver com uma miríade de fatores, e todos convergem na simples formação quantitativa de um dado grupo de atletas de alto nível e/ou de razoável competência. Já tivemos seleções que ganharam jogando feio e até que não mereciam se avaliadas por diversos critérios, mas, ao fim e ao cabo, sempre há mérito na competência e nenhuma campeã pode ser julgada como ruim, independente de como é lembrada.
(Se bem que a Itália foi bicampeã em 1934 e 1938 na conta do Mussolini ameaçando árbitros de morte, então fica esse asterisco.)
Essa tração geracional é o elemento-chave, e as seleções que sempre estão entre as favoritas ou as pelo menos comentadas como candidatas são aquelas cujos países produzem continuamente algum grau de talento em campo numa quantidade minimamente funcional para formar times competitivos. Via de regra, o normal é que essas eternas favoritas ou candidatas produzam muito mais gerações talentosas do que necessariamente conquistem títulos.
A Copa é um marco geracional para as nações que a disputam, servindo como uma amostra analítica muito mais justa do que os campeonatos nacionais, que são muito mais sujeitos à disparidade de poder financeiro. Uma seleção reflete muito mais o nível técnico dos jogadores e a capacidade do país de produzir talentos, ao menos os brutos. Isso significa que um país com um campeonato fraco pode gerar ainda assim uma seleção talentosa, às vezes em modo contínuo, como Argentina e Holanda, às vezes pontualmente, como a Bélgica, que teve nesta última década uma geração tão comentada por seu potencial técnico que acabou virando piada pelos resultados pífios em campo.
Eis, então, o drama por trás do futebol bem jogado: boas seleções não se convertem em campeãs. Marcado por um eterno presentismo, o futebol apaga marcas passadas na sanha pela glória imediata, nublando processos de longa duração que tornam certos resultados muito mais claros, ainda que os imponderáveis do campo sempre entrem em ação.
Mesmo com suas secas históricas, o Brasil nunca soube o que é produzir apenas soluços geracionais dignos de um futebol campeão. Contamos nos dedos quantas vezes o desempenho em Copas foi ridículo em contraste com as inúmeras seleções talentosíssimas que bateram na trave ao ser vitimadas pelo acaso no rolar da bola. Não sabemos o que é a sensação tão comum em outros países de se insuflar de esperança diante de uma geração de ouro apenas para vê-la perder a chance derradeira.
Num século marcado pela permanência apenas de nações muito consolidadas no esporte, não nos voltamos para as grandes gerações do passado, para os desempenhos históricos de seleções que hoje não fazem frente a ninguém ou sequer conseguem chegar ao mundial. Quantas pessoas sabem que a maior goleada da história das Copas foi empenhada pela Hungria de 1954, um dos melhores times que jamais venceu? A nação era a grande potência da década e dada como campeã certa, mas perdeu a final de virada para a Alemanha Ocidental numa zebra talvez maior que a do mundial anterior, que nos legou o Maracanaço.
Muito antes da famosa geração belga virar piada, seus vizinhos neerlandeses foram tachados de eternos vices após perderem duas finais seguidas jogando o futebol mais vistoso do planeta, uma revolução a olhos vistos que até hoje impacta a bola jogada em nossos campos. O incrível Carrossel Holandês comandado pelo majestoso Johan Cruyff era tão digno de ser coroado quanto nossa antológica seleção de 1982.
Por trás de todo afã de esperança numa vitória, há o sombrio augúrio do amargor do fracasso. A glória não coroada nos picos do esporte acaba por manchar o talento que atravessa vidas inteiras. A melancolia dos grandes times que nunca venceram traz consigo um sabor definidor intenso demais para permitir outras formas de degustação.
Essa é a sensação estranha que toma conta toda vez que testemunho uma nova Copa, o clamor da ruína iminente para todos aqueles que não conseguirão cravar as travas de suas chuteiras no pódio da história. O prenúncio do ápice é também o ensejo do declínio, e não consigo não compadecer daqueles que não sabem se terão outra chance para a glória.
É fácil explicar por que o hexa não veio e não se aproxima como gostaríamos, razões para tal não faltam e nenhuma delas tem a ver com os imponderáveis da bola. Difícil é se consolar diante da constatação iminente de que os melhores dias passaram e não há outro cenário no horizonte senão as tempestades de longos invernos geracionais, corvejando o mais sombrio destino àqueles a quem foi prometida a realização plena.
O título desta edição vem dos versos de “Cemetery Bloom”, faixa do álbum Reverence, de 2018, da banda australiana de metalcore Parkway Drive. Foi uma luta pra achar uma tradução digna e sonora para o verso a bird of illest omen crowing all impending doom. Fiz meu melhor para funcionar sem entregar demais.
Esta edição é uma crônica que simplifica minha ideia original de refletir sobre a “sensação de ruína iminente” em grandes histórias marcadas pela construção de um ápice de feitos, geracionais ou não. Listei exemplos literários e cinematográficos para explorar, mas optei por só aproveitar o momento da Copa do Mundo e riscar o antigo desejo de escrever algo minimamente relacionado que surgiu bem no meio de um mundial, no caso, o de 2018. Pretendo revisitar a questão no futuro e expandir num ensaio propriamente dito para analisar os fatores entrelaçados na tração geracional.
Esta edição da Galimatias foi concebida e escrita por Jotapê Russo, este que vos fala. A identidade visual e as ilustrações são de Raíssa Barbosa, palpiteira profissional a cada quatro anos.
Obrigado pela leitura. Espero que esta crônica semidesportiva tenha sido gentil com seu tempo.



