A mesma desgraça
Ou outras formas de usar um martelo
Quando saímos da sala de cinema e cada membro do grupo deu sua breve resenha, meu comentário foi apenas “eu queria morar nesse filme”. Desde a estreia em novembro até o presente momento, e provavelmente no futuro adiante, esse é o sentimento que deve predominar em minha percepção sobre a obra.
Muita tinta já correu falando de O Agente Secreto (2025), e muito ainda há de se falar a depender da repercussão após possíveis premiações no Oscar de 2026. Em geral, a tendência é que eu ligue muito pouco para o que se discute a respeito de filmes que causam muito barulho. Não que eu seja um alecrim dourado, um inimigo do hype, um cult metido a besta; só não sou grande fã de todo o ruído gerado quando há um interesse tão vocal e tão intenso.
O que eu gosto mesmo é de peneirar o que foi dito depois que a poeira abaixa pra pescar as visões mais agudas que acabam abafadas em toda a comoção. Como você está prestes a acompanhar neste texto, esse movimento tem um charme muito particular e se espraia pelos campos mais inusitados.
Esta é uma ocasião especial, porém. Logo depois de ver o filme, sabia que ia querer falar sobre ele e que poderia fazê-lo a qualquer momento. É um dos raros casos em que tomar meu tempo para digerir a obra não fez tanta diferença quanto se tivesse escrito no calor da estreia. As ideias sempre funcionam melhor quando têm tempo para maturarem, claro, e é o que vejo aqui, mas não estão distantes do impacto inicial que sofri meses atrás.
Em partes, preciso admitir que meu ímpeto deriva de certo ranço com a recepção padrão que se faz com certos fenômenos culturais, e me dói que O Agente Secreto seja vítima da inundação de platitudes inerente ao hype. A parte da crítica que diminui o filme é enfadonha, a parte que o exalta me dá preguiça. Parte das reclamações levantadas serão um pouco endereçadas aqui no presente ensaio como ganchos de análise, ilustrando a pequenez mental do crítico médio diante de propostas mais heterodoxas de narrativa. A exaltação, porém, por vezes me soa tão tacanha que nem sei como lidar.
A leitura de O Agente Secreto como um suposto filme denúncia só soa como mera repaginação de toda o carnaval que se fez do cinema de favela no seu auge, toda a pecha para o bem e para o mal da arte brasileira com seu compromisso social. Isso é tão anos 2000 que suspiro só de lembrar das infinitas tentativas de copiar a linguagem e o efeito do genial Cidade de Deus (2002).
Mas bem, você esperava o quê? Semana passada eu publiquei quase dez páginas de uma espiral maluca sobre histórias vidradas em questões acadêmicas como um subgênero próprio, e na semana anterior prometi que o tema do mês seria todo associado a isso. É claro que vou falar do filme do momento a partir de um ângulo torto que só alguém tão fissurado pelo próprio ofício poderia enxergar.
Sim, O Agente Secreto é (também, mas não só) um thriller acadêmico e estou aqui para provar. Mas, melhor ainda, ele é tanto isso quanto uma pesquisa acadêmica ficcional em si própria. É o meta-academicismo que só um entusiasta maluco por estilos narrativos pouco usuais como Kleber Mendonça Filho poderia entregar. E tudo isso sem ser uma obra experimental-vanguardista-pedante e muito mais uma grande ode às histórias de gênero.
Já digo de saída que comentário inicial sobre o filme determina o mote de quase tudo que tenho a dizer sobre. Quando disse que “queria morar nesse filme”, parte do que me referi é que não senti o tempo passar e lamentei profundamente que a história tivesse chegado ao fim. São duas horas e quarenta de duração, uma extensão cinematográfica que na esmagadora maioria vezes repele meu desejo circunstancial de sentar e dedicar minha atenção.
Para filmes longos, adoto um ritual de me preparar (às vezes ao longo de semanas) para estar no estado de espírito apropriado para a devida apreciação. Há, sim, momentos em que dá a louca, sento e assisto, claro, mas são eventos astrológicos pouco usuais. Na filmografia do próprio Kleber Mendonça, todas as outras ocasiões exigiram um exercício de paciência, mesmo no aclamado Bacurau (2019), que vi no cinema e ainda estou devendo revisitar.
O Agente Secreto, por outro lado, parece suspender minha percepção de tempo. No cinema, não senti nenhum transcorrer, sequer me lembro do incômodo físico constante que tenho tido e que me obriga a ficar trocando de posição a cada poucos minutos. Lembro apenas de ficar vidrado e imerso, preso em cada detalhe do que via. Ao assisti-lo de novo recentemente, já nos streamings, sabia que o tempo estava passando apenas porque me dei o trabalho de conferir a marcação temporal de certos trechos para contribuir nas ideias que queria elaborar aqui. O efeito colateral de saber em que ponto estava foi a angústia de saber que o fim estava cada vez mais próximo.
A partir dessa experiência de temporalidade suspensa, querer morar no filme significa que Kleber Mendonça Filho foi capaz de entregar, ao menos à minha percepção cognitivo-sensorial, uma obra tão palpável que ganhou viés de realidade. E é aqui que começamos minha diatribe contra os detratores do filme. O realismo de O Agente Secreto é um dos grandes temas discutidos a torto e a direito, se não o mais alardeado. De um lado mais barulhento, exalta-se o primor da produção em retratar a Recife de 1977 como se estivéssemos viajando no tempo, tamanho o rigor de precisão histórica. Do outro, os mais acabrunhados rejeitam tal visão a partir de microincongruências que colocariam toda a proposta pseudodocumental em xeque.
Sim, é espetacular se defrontar com uma visualização tão temporalmente marcada do cenário no qual a história se desenrola. O filme tem cara, tem textura, tem até o cheiro do Recife e do Brasil de 1977, até eu que nasci quase vinte anos depois consigo sentir isso. O design de produção é deslumbrante, os carros, as casas, as roupas, os cenários, a sensação é de se estar num outro momento, num outro mundo.
Mendonça é documentarista por paixão, começou por aí e levou toda sua linguagem para a ficção. É um aficionado por experimentar diferentes formas de retratar a realidade; ou melhor, diferentes formas de capturar a percepção de uma realidade. Sua obra é toda atravessada por esse estímulo, e o que demonstra tal esforço é um dos aspectos mais inusitados e que mais intriga seus espectadores: a mistura de gêneros.
Veja Bacurau, por exemplo. Lembro até hoje do meu choque de tentar posicionar o filme dentro da caixinha organizadora de um único gênero ficcional e ficar tão perdido no exercício que demorei a me fixar no fluxo do enredo. É ficção científica, faroeste, distopia, terror psicológico, regionalismo ou horror sobrevivencialista? É tudo isso batido num liquidificador até chegar numa maçaroca em que não se distingue mais com clareza os ingredientes. O Agente Secreto segue a mesma verve, ainda que misturando muito menos elementos, e parece indicar que este é o caminho que Mendonça deve seguir depois de começar mais contido com seus primeiros longas de ficção, O Som ao Redor (2012) e Aquarius (2016).
O que isso tem a ver com realismo? Bom, tem a ver com o fato de o realismo como gênero ficcional é uma falácia completa. Ou melhor, a percepção do realismo de tal forma é uma burrice reiterada constantemente por aqueles que dizem apreciá-lo. Não existe retratação fidedigna da realidade, você já deveria saber disso se não é novo por aqui. A ideia do realismo como gênero, em sua origem, não é buscar a realidade como algo concreto e absoluto. É, na verdade, um exercício de aplainar certos elementos do mundo ao redor dos personagens para dar atenção a outros aspectos.
Tomemos a célebre trilogia realista do grande Machado de Assis como exemplo. Memórias Póstumas de Brás Cubas é um romance literalmente narrado como se fosse escrito por um morto. Um morto, um defunto, um cadáver. Realista, não? Machado já antecipava ideias do surrealismo ou o vivemos em um delírio coletivo em que concordamos de achar que está tudo bem um morto narrar sua vida como se nada? Bem, meio que as duas coisas, mas enfim.
Brás Cubas é sim um romance surreal, mas ele não deixa de ser realista pois este fundamento está na técnica de escrita empregada por Machado. Tudo é construído à guisa de configurar uma história tão verossímil que é palpável, independente de um morto ser o narrador-protagonista. Mesmo Dom Casmurro serve à discussão. A eterna questão sobre a factualidade das lembranças de Bentinho já joga por terra a ideia de uma realidade concreta inquestionável. Machado constrói uma narrativa que é real na medida em que é crível, o que não quer dizer que é absoluta pois se trata da perspectiva de seus personagens.
Kleber Mendonça Filho emprega artifícios análogos, muitos deles trazidos da linguagem de seus documentários, para construir suas produções audiovisuais com o mesmo objetivo. O crítico PH Santos resumiu o pensamento de forma elegante ao colocar que “os filmes de ficção são os melhores documentários”. Carrego desde a adolescência uma pensata similar: a ficção é mais real do que a realidade.
A mistura de gêneros vista em Bacurau e O Agente Secreto serve a esse propósito porque aponta que não existe uma forma precisa de capturar a realidade tal qual a percebemos. Isto é, quando tentamos transpor a forma com que tomamos sentido do mundo, tudo parece caótico e desconjuntado. Os elementos surreais do filme mais recente, como a narrativa da Perna Cabeluda, servem como principal exercício disso. Outro que faz essa função é o apreço cada vez maior de Mendonça pelo gore, tão bem produzido com efeitos práticos. Pra que serve o aspecto gráfico da retirada da perna de dentro do tubarão ou o tirambaço que deforma a cara do policial já no fim da história? Se é pra ser um filme tão pé no chão e realista, tão documental, como explicar os efeitos dignos de um filme slasher?
Assim como um documentário não é a realidade, o realismo não se presta a uma configuração materialista impenetrável de uma determinada sequência de eventos. Se fosse o caso, seria impossível alcançar os efeitos sensoriais que o filme traz, pois é exatamente na sinestesia desses elementos supostamente contraditórios que se constitui o mais próximo de nosso senso usual de palpabilidade.
Se nada do que eu falei parece te fazer sentido, vou me esforçar com mais um exemplo, dessa vez tão esdrúxulo que, se não funcionar, você talvez seja um caso perdido.
Procure se lembrar do momento ridículo que vivemos há mais ou menos uma década, quando o imprestável Zack Snyder ainda marcava presença como força criativa no cinema pipocão. O suposto grande apelo de sua visão para os super-heróis da DC Comics era que seria uma abordagem “mais realista e sombria”, em contraste com o carnaval de cores e infantilidades dos filmes da Marvel. Snyder puxou o fio a partir de onde Christopher Nolan, nosso querido amigo galimático, deixou ao encerrar sua trilogia do Batman, que tinha exatamente a proposta de apresentar uma visão mais “pé no chão” do Homem-Morcego.
A pergunta importante aqui é: você consegue me explicar como um sujeito vestido de roupa de morcego que sai à noite pra bater em bandidos porque é um riquinho traumatizado pode ser apresentado de qualquer maneira que seria factível em nossa realidade? Se você acha que consegue, por favor, busque ajuda. A única forma que o Batman pode existir em nossa realidade é como parte da Carreta Furacão, um animador de festas infantis.
A ideia de realismo nos quadrinhos de super-herói não tem absolutamente nada a ver com a factibilidade dos mesmos. É, assim como na literatura, apenas uma técnica de construção narrativa para estabelecer certo grau de verossimilhança e, a partir disso, focar em outras propostas temáticas. Vou facilitar ainda mais e frasear como se fosse num livro didático: num mundo de fantasia em que existem super-heróis, como seria se as coisas fossem um pouco mais pé no chão? Que tipo de temas podemos explorar a partir dessa abordagem? Não é uma especulação de como seria se super-heróis existissem no nosso mundo.
O Agente Secreto é um filme realista? Sim, bastante. Isso significa que ele está plenamente de acordo, nos detalhes mais ínfimos, com a realidade histórica que retrata? Definitivamente não. Isso diminui sua potência artística e intelectual? Ao contrário, só a torna mais pujante.
Imagine como reagi eu, um antropólogo que brinca no mesmo parquinho que os historiadores, quando, pouco antes da metade do filme, temos a primeira cena no presente, na qual as pesquisadoras Flávia e Dani trocam ideia sobre as fitas que estão ouvindo e transcrevendo, referentes às entrevistas feitas com os personagens do passado que até então estávamos acompanhando. Se imaginou um micropulo da poltrona no cinema e um grito contido de euforia, imaginou certo.
Reagi assim porque sou corporativista com meu ofício e meus colegas das ciências humanas como um todo? Um pouco, sim, não posso negar. Mas, principalmente, porque é uma abordagem metalinguística genial para a proposta narrativa do filme.
Uma das críticas negativas que li sobre O Agente Secreto trata do excesso de histórias e roteiros que não se completam ao longo do enredo. Poucas vezes me deparei com tamanha pobreza de percepção sobre uma história. Kleber Mendonça Filho parece levar ao cinema um paradigma narrativo similar ao que o célebre escritor Ernest Hemingway proclamava como sendo o ideal para a constística. Reza o saber literário que, para o autor em questão, o bom conto é a história em que, depois de escrita por completo, corta-se o início e o fim. O argentino Julio Cortázar emprega uma visão similar verificável em boa parte de sua obra. Reina a sensação de ser jogado no meio de um fluxo de acontecimentos no qual, sem o esforço pessoal do leitor, não é possível acompanhar a história e muito menos fazer sentido daquilo que se está acompanhando.
Mendonça Filho domina um tipo de narrativa emergente, muito bem ilustrado em seu longa de ficção inaugural O Som ao Redor. É um filme que nenhuma sinopse consegue fazer jus ao que assistimos, pois não há enredo evidente. Começamos a acompanhar um personagem logo no começo apenas como um fio de entrada para a vida num quarteirão na região metropolitana do Recife. Não há narração, não há plot explícito, não há conflito claro, não há progressão linear. Há apenas uma sucessão descontínua de eventos a partir da interação de vários personagens. Aos poucos, algumas linhas convergem a ponto de nos permitir especular rumos e sentidos. Ao final, há uma amarração principal que “explica” parte dos eventos, no sentido de permitir a concatenação mais justificada dos mesmos, mas que não abarca e encerra todo o horizonte narrativo ao qual somos introduzidos. O que acompanhamos, então, é apenas um recorte de uma certa realidade local, um pequeno vislumbre de como a vida acontece no contato interpessoal entre os tipos mais variados de gente.
O diretor nunca abandonou tal paradigma, apenas a refinou para experimentá-lo em diferentes abordagens. No caso de O Agente Secreto, também temos um final, mas que evidencia seu caráter quase irrelevante para o todo da história ao ser apresentado fora da linha narrativa principal. Em relação ao começo, não sabemos de onde Armando, então apenas Marcelo para nós, está vindo.
A emergência que acompanhamos é a produção da materialidade de um dado recorte de período histórico a partir de registros documentais, em especial gravações de entrevistas, mas também conteúdos jornalísticos. O que Flávia faz é reconstruir um momento histórico a partir de fragmentos de informação. O que Mendonça Filho faz é construir um mundo materializado através de uma narrativa imanentista.
Quando pesquisamos em documentos, não existe uma realidade concreta a ser desvendada simplesmente porque é impossível enxergar o passado como ele foi. O mundo existe a partir de nossa percepção e nossas vidas se fazem reais a nível material a partir de como interagimos uns com os outros e com o mundo ao redor. Como seria possível recuperar a concretude do passado se o mundo não é o mesmo e os habitantes de outrora já se foram? Nenhum documento pode abarcar a realidade assim como o mapa não pode abarcar o território.
A pesquisa documental é, em boa parte, um exercício calcado tanto em fibra moral quanto em criatividade. A fibra moral está na disposição de encontrar o máximo possível de subsídios para mapear o contexto sobre e no qual se pesquisa, enquanto a criatividade está na capacidade de manusear esses subsídios e constituir o retrato daquilo que se pretende analisar. É inevitável que fiquem lacunas, e geralmente a boa pesquisa é também marcada pela explicitação de tais lacunas e de quais especulações e hipóteses o pesquisador faz para tentar lançar alguma luz sobre elas.
Dizer que Kleber Mendonça Filho constrói um mundo materializado através de uma narrativa imanentista é apontar para o efeito similar que O Agente Secreto traz em sua produção de materialidade histórica. O filme é tão sensorial em seu realismo porque se presta ao mesmo esforço que as boas pesquisas documentais em agenciar os subsídios à sua disposição para constituir essa palpabilidade. Todo o design de produção serve não a um compromisso com a factualidade história em si mesma, mas para essa imersão sensorial.
Talvez Mendonça projete a si próprio, ao menos em parte, na personagem Flávia, que se envolve com o arquivo num nível emocional a ponto de fazer uma missão pessoal o cumprimento da materialidade da pesquisa. A que propósito servem os documentários do diretor senão a evidenciar aspectos do mundo ao redor que o instigam criativa, emocional e intelectualmente? A que propósito servem suas homenagens ficcionais, históricas e geográficas no filme senão a prestar saudação àquilo que o inspira? A que propósito Flávia se dá tanto trabalho de ir adiante com a reconstrução da trajetória de Armando quando não há mais interesse financeiro, político e intelectual para bancar o esforço da pesquisa?
De volta ao paradigma de Hemingway quanto a começos e fins cortados, o paralelismo com a pesquisa documental fica ainda mais claro quando temos isso em vista. Como disse, não sabemos de onde Armando/Marcelo está vindo quando retorna ao Recife. Há uma lacuna de três anos em sua história, pois sabemos que os eventos determinantes do passado recente, o desmonte do departamento de engenharia e a briga com Henrique Ghirotti se deu em 1974. Seu assassinato é encomendado apenas três anos depois, bem quando ele é colocado numa lista da Polícia Federal que o impede de sair do país.
O que aconteceu entre 1974 e 1977? Fátima, sua esposa, esteve com ele nesses anos? Quando ela faleceu? Por que Ghirotti esperou tanto tempo para contratar matadores? Temos apenas pistas, como o fato de seu advogado, meu homônimo, estar em Brasília. Armando esteve lá, então, realocado para a indústria como seus colegas da universidade? Decide fugir do país temendo represália por algo que fez nos três anos ou pelos eventos de 1974? Passou esses anos como Armando ou já como Marcelo?
Nada disso é respondido, para desespero dos realistas. Para este pesquisador documental, que lidou com lacunas muito mais gritantes em sua pesquisa, são pontos de especulação deliciosos. É preciso alguém como Flávia, que tem a gana de correr atrás das perguntas, para montar o quebra-cabeça e visualizar algo mesmo com muitas peças faltando. O padrão usual é que as pessoas, incluindo aquelas que pesquisam, se comportem como Dani, sua colega, que tem a disposição de um freio de mão puxado para fazer o trabalho. “Você me conhece, né, se não tem no Google…”, diz ela com uma sem-vergonhice enervante. Fibra moral e criatividade, eu disse, mas você pode ler como obsessão. Nenhuma boa pesquisa é levada a cabo sem essas ferramentas. Devia valer pra vida também, parando pra pensar. Quer algo mais thriller acadêmico do que isso, camarada?
Talvez você esteja se perguntando como e por que eu ainda não toquei no fato de que O Agente Secreto é um filme de ditadura. Se só se tocou disso agora, então fiz meu trabalho bem feito. Sou quase capaz de dizer que este é meu aspecto favorito do filme, mas aí me lembro de que nenhuma das questões que abordei até aqui se dissociam quando paro pra pensar nele. (Calcule, então, meu esforço para traduzir tudo num texto inteligível.)
Quando digo que queria morar no filme e nos lembramos que é uma história de ditadura militar, talvez você questione minha sanidade. Como posso eu, um antropólogo anarquista, querer viver dentro de uma história dos anos de chumbo?! Bem, é aí que chegamos no verdadeiro recheio da obra. O Agente Secreto não é um filme de ditadura, mas sim um filme na ditadura.
Sim, sim, tem perseguição política, repressão policial, oposição na encolha e o pacote completo, tem sim. Mas isso é porque todos esses elementos são condição sine qua non (olá, Marília Gabriela, também sei usar) para qualquer história do e no período, ao menos aquelas que abordam personagens conscientes do regime em que viviam independente de seu engajamento político. É o caso de Armando, claro.
Veja, nosso protagonista não é um agente de oposição, um subversivo, como diziam os militares. É um gestor universitário e pesquisador acadêmico adequado a uma estrutura institucional que, caso você não saiba, foi consolidada exatamente no período militar. Pois é, o modelo de universidades federais tal qual conhecemos hoje surgiu nessa época, englobando instituições anteriores que existiam de forma completamente autônoma para então passarem a participar de um todo pensado em função da nação. Ao menos em tese, claro.
Para todos os efeitos, Armando serve ao regime por cumprir com a função administrativa e intelectual que era pedida de um membro do corpo institucional, especialmente quando levamos em consideração que as pesquisas desenvolvidas ali pelo departamento serviam ao propósito de subsídios à soberania nacional no campo da tecnologia. Ele se torna alvo não por ir contra o regime, mas por bater de frente com um outro campo que garantiu a estabilidade dos governos militares e que, por décadas, foi pouco endereçado em pesquisas e denúncias: o setor empresarial. Por trás do discursinho de soberania dos milicos, o apoio estrutural que permitiu a farra dos altos e baixos escalões foi o favorecimento dos interesses do empresariado brasileiro, em especial do eixo Rio-São Paulo.
As histórias tradicionais da ditadura tratam dos eventos marcantes do período, das guerrilhas e movimentos revolucionários, dos perseguidos, torturados e desaparecidos por crimes políticos, dos intelectuais e artistas exilados e por aí vai. Na História, com inicial maiúscula mesmo, é o que se chama de “história das grandes figuras”, as narrativas (geralmente, mas não só, as oficiais) que tratam dos líderes e sujeitos de nota que fizeram e aconteceram.
Foi graças a um certo grupo de historiadores italianos incomodados com essa mítica que ganhamos uma abordagem complementar, a chamada “história ao rés do chão”, ou micro-história. Não é uma oposição à visão macroscópica, mas sim uma busca por observar e analisar como as dinâmicas macro se refletem e são refletidas pelas dinâmicas micro. A história de um reino não acontece fora ou para além dos eventos e interações em cada um de seus vilarejos, mas sim através deles tanto quanto das ninharias palacianas que escapam aos arquivos oficiais. Do mesmo modo, a história do período militar se materializa através de cada perseguição política num bairro, de cada troca de favores escusos entre uma empresa regional e um deputado estadual, de cada ocultação de cadáver de um “subversivo” de condomínio, de cada policial de esquina metido a microditador.
O Agente Secreto é uma obra definitiva em termos de ilustração de como um recorte de uma realidade micro, que não retrata nenhum grande evento de repercussão nacional, serve para lançar luz sobre a estupidez que imperou nos anos de chumbo. Kleber Mendonça Filho faz um trabalho impecável de mostrar a ditadura como um período constitutivo de mentalidades e subjetividades para além de uma sucessão de eventos e processos políticos.
Armando não é o titular agente secreto, ninguém o é, mas boa parte dos personagens que encontramos se sentem como tal pois são perseguidos pelos motivos mais esdrúxulos. A sensação de paranoia imperava entre todos que tinham o mínimo de consciência para a natureza do regime político em que viveram. Pisar no calo de qualquer pessoa com o mínimo de influência, local ou geral, já seria o suficiente para se ver em risco de morte. Armando bate de frente com um paulistano de merda e acaba morrendo por isso, ponto final. Não há nada de caráter nacional em jogo.
Quando os pistoleiros são apresentados, o enteado Bob pergunta quem é a mulher que estão matando. Seu padrasto, um militar expulso, responde que foi a própria família que encomendou a defunta por herança e inveja. Basta isso para comprar a morte de alguém. Ainda hoje é o caso. Há pouquíssima distinção entre bandidos e forças de segurança pública, pois o próprio público é sempre um alvo em potencial, em especial quando se tratam de grupos sociais indesejáveis aos olhos do poder.
Ainda sobre o título, não se trata de um único agente secreto, são várias agências mobilizadas em segredo pelos mais diversos personagens, uns com mais, outros com menos noção da dimensão da colaboração que prestavam. Anísio, diretor do Instituto de Identificação, é um facilitador silencioso, que pode ajudar pois se disfarça como um bom funcionário público que atende às demandas do poder policial. Dona Sebastiana cuida de um condomínio local, e com isso pode escolher abrigar pessoas em situação delicada de forma insuspeita. Seu Alexandre, nosso tiozinho boa praça, sabe como usar os cômodos discretos do cinema para reuniões ocultas. Ao mesmo tempo, temos agentes do outro lado, como dono (ou administrador) do engenho que indica seus próprios funcionários para serviços de pistola e o outro projetista do cinema que vende o companheiro de trabalho por uma provável ninharia.
Em uma das críticas negativas ao filme, o personagem Henrique Ghirotti é considerado um vilão caricato e simplista, uma caricatura de um sudestino feita para jogar com afetos baratos. Qual o simplismo na retratação de um gerente da Eletrobrás que é diretor de uma empresa familiar e conselheiro em diversos aparatos públicos? Qual o simplismo na contradição discursiva entre o apelo ao sangue italiano e sua acusação de Armando ser um parasita dos recursos públicos que fere o funcionamento e o progresso de nossa bela nação? De certo nunca vimos nada remotamente próximo disso, completamente fantasioso.
Não existe nada mais realista do que a redução da vida a mera troca de dinheiro vindo da boca de um empresário tosco. Não existe nada mais realista do que um sujeito se recusar a ocultar o próprio nome por não se conformar em ser perseguido por uma estupidez de caráter puramente pessoal.
Mais uma vez, a mistura de elementos de gênero empregados por Kleber Mendonça Filho vêm à baila para consolidar a materialidade do mundo que busca construir. A gata de duas caras, as coisas que dona Sebastiana menciona mas não conta, a Perna Cabeluda, o vigia do arquivo transando com uma prostituta logo pela manhã, a situação da madame que matou a filha da empregada. Todos os absurdos e supostos excessos narrativos não servem a nenhum propósito claro, não constroem a trama da perseguição a Armando, não compõem um enredo, apenas servem para constituir um cenário vívido, um contexto onde vidas podem de fato se fazer reais.
Mais do que qualquer história factual, O Agente Secreto é um exercício ímpar de produção de afetos e efeitos a partir da mais pura ficção. Se fosse inspirado numa história real, não teria a mesma graça nem o mesmo impacto, pois estaríamos preocupados em comparar com a suposta concretude dos fatos, estaríamos prestando atenção numa história que, por ser factual, automaticamente deixa o rés do chão. Sendo completamente fictícia, a obra nos permite focar naquilo que de fato importa, que é confrontar o peso e o papel da memória.
Fernando, filho de Armando, só deixa de ter pesadelos quando enfim assiste ao filme Tubarão, movimento que nos falta com nossa própria história. Não existe conciliação e pacificação de conflitos históricos a partir do silêncio e da ignorância. É preciso encarar o passado com olhos injetados e martelo na mão, enfiar as mãos em suas entranhas como se quisesse arrancar uma perna entalada em seu bucho, se sujar nele para entender sua natureza da forma mais palpável e visceral possível, torná-lo material tal qual sua realidade de assombro constante para, quem sabe, enfim exorcizá-lo e mantê-lo apenas como aprendizado, como referência do que não queremos ser no futuro que vem adiante.
O título desta edição vem dos versos de “Senhor”, faixa do álbum Nheengatu, de 2014, da banda brasileira Titãs. Escrita como uma espécie de oração inversa, me chamou a atenção em especial a ponte, que diz: O pão nosso de cada dia / Me dê de graça / Assim na terra como no céu / A mesma desgraça. Apesar de não ter conseguido expandir e refinar o texto o suficiente para aprofundar no sentido desejado pelo título, achei que ainda assim ele fazia jus ao mote geral do que quis analisar.
Esta edição é uma resenha do filme brasileiro O Agente Secreto, escrito e dirigido por Kleber Mendonça Filho, lançado em 2025. Concorrente a quatro prêmios no Oscar, a obra é um material tão rico de apreciação e reflexão que certamente renderia uma dissertação inteira e um chorinho extra. Espero revisitá-lo em diálogo com outras obras de teor similar no futuro próximo.
Minha análise se fez em conjunto com algumas referências que colaboraram no refino de meu raciocínio. O sempre presente Braulio Tavares publicou dois ótimos textos sobre, uma resenha propriamente dita e uma reflexão sobre fiscalização de títulos. Cito a ótima resenha de PH Santos sobre o filme e fui bastante inspirado nesta análise de Erico Andrade e Thais Klein publicada pela editora Boitempo, focada no aspecto empresarial da ditadura. Por fim, este texto da Ana Mattioni foi minha entrada para as resenhas mais céticas e negativas sobre o filme.
Esta edição da Galimatias foi concebida e escrita por Jotapê Russo, este que vos fala. A identidade visual e as ilustrações são de Raíssa Barbosa, agente secreta nas horas vagas.
Obrigado pela leitura. Espero que esta conspiração carnavalesca tenha sido gentil com seu tempo.






eu amei o filme, embora tenha deixado a sala de cinema com um certo estranhamento, principalmente com a estética do "tempo presente" que foi dada ao filme. porém, é possível entender as escolhas estéticas, as lacunas, o fato de a história terminar no que, pra mim, era o ápice. claro que aqui está tudo melhor embasado.